
Crédito, Cortesia Ministério Público do Panamá
- Author, Leire Ventas
- Role, Correspondente da BBC News Mundo em Los Angeles
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Tempo de leitura: 12 min
Para José Antonio González, o voo 901 da Alas Chiricanas, na tarde de 19 de junho de 1994, seria o primeiro de muitos.
“Tony, como o chamávamos carinhosamente, tinha completado 19 anos em maio”, lembra sua mãe, Marta Márquez. “Ele havia acabado de concluir a formação de piloto nos Estados Unidos, seguindo os passos do pai, e iniciava o treinamento como observador de voo. Estava muito animado.”
Para Saúl Schwartz, empresário de 35 anos que fazia negócios na Zona Livre de Colón, a segunda maior cidade do Panamá, na costa do Caribe, a 80 quilômetros da capital, aquele era apenas mais um voo.
Era um percurso curto e rotineiro que o levaria de volta para casa, na Cidade do Panamá, assim como aos outros 18 passageiros da aeronave das Alas Chiricanas. Eles partiam da segunda maior zona franca do mundo — e principal centro de distribuição comercial da América Latina.
Mas, dez minutos após decolar do aeroporto France Field, o avião explodiu em pleno voo. Os destroços se espalharam pelo morro Santa Rita. Ninguém sobreviveu.
Passadas mais de três décadas marcadas por dúvidas e impunidade, o caso parece, enfim, mais perto de ser esclarecido.
Com um suspeito extraditado da Venezuela e apontado por Israel como integrante do Hezbollah — grupo político e militar muçulmano xiita sediado no Líbano e apoiado pelo Irã —, o Ministério Público do Panamá passou a investigar o episódio como “um ato com características convencionais de terrorismo”.
Se essa hipótese se confirmar, o ataque terá sido o pior atentado terrorista da história do Panamá.
“Reunimos novos elementos que consideramos fundamentais para esclarecer o caso”, disse a promotora Geomara Guerra, responsável pela investigação, em entrevista à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC. “Estamos no caminho certo.
A primeira investigação: sem avanços significativos
Um dos primeiros a chegar às encostas do morro Santa Rita, em busca de familiares, naquele 19/7, foi o cineasta panamenho Abner Benaim, sobrinho de Saúl Schwartz.
“Havia muita chuva e lama. Caminhei por muito tempo. Até hoje não sei dizer quanto. Depois me disseram que atravessamos um rio. No fim, chegamos ao local onde o avião caiu”, contou Benaim, à BBC News Mundo.
A polícia já estava na área quando um dos agentes barrou sua passagem.
“Eu disse que era parente de um dos passageiros e que queria ajudar. Ele respondeu: ‘Não, não. Estão todos mortos'”, lembra.
Aquela frase acabou se transformando em um documentário que Benaim levaria anos para concluir. O filme é, ao mesmo tempo, um relato pessoal e uma tentativa persistente de encontrar respostas para as perguntas que ainda cercam o caso.
“De repente, o que pode ter acontecido com meu tio em 1994 passou a ser a coisa mais importante da minha vida. Foi como se o avião tivesse explodido em cima de mim”, Benaim diz à psicóloga em uma das cenas de Paraíso Tropical, lançado em abril deste ano (sem previsão de estreia no Brasil).
O que realmente aconteceu? Quem estava por trás do atentado? Quem colaborou? Quem era ou quem eram os alvos? Por que isso aconteceu no Panamá?

Crédito, Cortesia do Ministério Público do Panamá
Com o tempo, algumas dessas perguntas começaram a ser respondidas, enquanto outras continuam envoltas na mesma névoa densa que cobre as colinas da costa caribenha durante a temporada de chuvas.
A primeira conclusão confirmada pela investigação foi que, entre as 21 vítimas, estavam 12 integrantes da comunidade judaica do Panamá — entre eles, Schwartz — e três cidadãos americanos.
Nos dias seguintes, todos os corpos foram identificados e reclamados pelas famílias, com exceção de um.
Pelas lesões encontradas no corpo e por outras evidências, a perícia concluiu que ele provavelmente pertencia ao homem que carregava o explosivo responsável pela destruição do avião. Mais tarde, ele seria identificado como Lya Jamal, ou Ali Hawa Jamal, ocupante da poltrona 6, que teria acionado a bomba escondida em um rádio comunicador.
O fato de a tragédia ter ocorrido apenas 24 horas depois do atentado com carro-bomba contra a Associação Mutual Israelita Argentina (Amia), principal centro comunitário judaico de Buenos Aires, que deixou 85 mortos e continua sem solução, tornou a investigação ainda mais complexa.
Ao longo dos anos, os investigadores trabalharam com duas hipóteses. A primeira apontava para um atentado contra a comunidade judaica atribuído aos houthis, movimento militante xiita autodenominado Ansar Allah, que atua no Iêmen e é associado ao Hezbollah. A segunda sustentava a possibilidade de um “acerto de contas” contra uma pessoa “possivelmente envolvida com cartéis do narcotráfico colombiano”. A investigação mudou de rumo diversas vezes até ser encerrada sem avanços significativos.
A BBC News Mundo procurou o promotor responsável pelo caso na época, Juan Antonio Tejada, que encaminhou o pedido de entrevista aos atuais dirigentes do Ministério Público.
Na Argentina, a Justiça conduziu uma investigação própria, cujos resultados foram reunidos em um processo que permanece sob sigilo.
Anos depois, informações fornecidas pelos serviços de inteligência de Israel e pelo FBI (polícia federal americana) dos EUA levaram o governo do então presidente Juan Carlos Varela a pedir a reabertura do caso, em 2018.
A reabertura do caso
O ex-presidente Varela também foi atingido pessoalmente pela tragédia.
“No avião estava meu colega de universidade, Mauricio Harrouche. Estudamos juntos por quatro anos no Instituto de Tecnologia da Geórgia (Georgia Tech), em Atlanta, nos EUA. Morávamos em apartamentos vizinhos e, no último ano, ele foi morar comigo”, contou Varela à BBC News Mundo.
Segundo Varela, a amizade entre as duas famílias se fortaleceu quando ambos voltaram ao Panamá. Ao assumir a Vice-Presidência, em 2009, ele passou a acompanhar o caso de perto e manteve contato com integrantes do Instituto de Inteligência e Operações Especiais de Israel (Mossad), em Bogotá, capital da Colômbia.
Mais tarde, já na Presidência, recebeu novas informações de um agente do FBI que havia participado das investigações e com quem se encontrou durante uma recepção oficial.
Essas informações, juntamente com uma carta enviada pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, durante uma visita oficial ao país, levaram Varela a pedir à Justiça do Panamá que reabrisse o caso.
Na carta, Netanyahu dizia que os serviços de inteligência de Israel tinham provas de que a explosão do avião havia sido “claramente um ataque terrorista”.
“Vamos nos reunir com autoridades panamenhas e representantes da comunidade internacional para pedir formalmente a reabertura do caso Alas Chiricanas e identificar os responsáveis pelo atentado”, declarou Varela em entrevista coletiva, em maio de 2018.

Crédito, AFP via Getty Images
“Fazer justiça ao meu amigo virou uma missão para mim”, diz hoje à BBC News Mundo o ex-presidente, que responde a uma ação penal relacionada ao caso Odebrecht, um dos maiores escândalos de corrupção da América Latina. A investigação apura um suposto esquema envolvendo a empreiteira brasileira, além de políticos, autoridades e empresários de cerca de dez países, entre 2005 e 2014.
Na época, Varela negou ter recebido “pagamentos indevidos” da Odebrecht ou de qualquer outra empresa contratada pelo Estado e afirmou que estava disposto a “enfrentar o julgamento”. Como ocupa uma cadeira no Parlamento Centro-Americano (Parlacen), o processo tramita na Corte Suprema de Justiça.
As investigações do FBI e de Israel
Enquanto as investigações da explosão do avião avançavam no Panamá, o FBI continuou apurando o chamado “caso Alas”. Desde 29/5/2024, o órgão mantém em seu site um pedido de informações sobre o atentado.
A página traz um retrato falado de Ali Hawa Jamal, apontado como o homem que teria levado a bomba para dentro da aeronave, além de três fotografias em preto e branco, obtidas por câmeras de segurança, que mostram homens ainda não identificados e possivelmente ligados ao caso.
Segundo as informações divulgadas, em 27 e 28 de maio de 1994, um homem não identificado, descrito como sendo de origem do Oriente Médio, usou o cartão de crédito roubado de um cidadão americano para alugar, na Cidade do Panamá, dois veículos com tração nas quatro rodas e um sistema telefônico de duas linhas. Os veículos foram encontrados mais tarde abandonados nas proximidades do aeroporto internacional de Tocumen.
“Não se sabe se os homens retratados nas fotos acima eram cúmplices de Ali Hawa Jamal. Acredita-se que tenham viajado para Colômbia, Venezuela, Costa Rica e Líbano e que mantivessem contato com pessoas ligadas ao tráfico de armas”, informou o FBI.
O órgão também afirma que o Departamento de Estado dos EUA oferece recompensa de até US$ 5 milhões (cerca de R$ 25,4 milhões) por informações “que levem à prisão ou à condenação, em qualquer país, de qualquer pessoa que tenha cometido, tentado cometer ou conspirado para realizar o atentado a bomba contra o voo 901 da companhia aérea Alas Chiricanas, ou que tenha atuado como cúmplice ou instigador desse ataque, que resultou na morte de três cidadãos americanos”.

Crédito, FBI
Em 2020, o FBI também divulgou um cartaz pedindo informações sobre o paradeiro de Ali Zaki Jalil, descrito na época como um homem de cerca de 52 anos, 91 quilos e 1,80 metro de altura, “entusiasta do paraquedismo, que viajava com frequência e era proprietário de vários bares na ilha de Margarita, na Venezuela”. Segundo a agência, ele poderia ter “informações cruciais” sobre o caso.
Procurado pela BBC News Mundo, o escritório de imprensa do FBI informou que não poderia fornecer mais detalhes e confirmou que a recompensa continua sendo oferecida.
Em entrevista ao documentarista Benaim, Mike Benham, da Divisão de Contraterrorismo do escritório do FBI em Miami, afirmou que a investigação continua em andamento, segue trabalhando com “várias hipóteses” e já identificou “três pessoas de interesse” no caso.

Crédito, FBI
Na tentativa de ouvir todas as fontes possíveis, o cineasta também foi a Tel Aviv, em Israel.
No documentário, Shabtai Shavit, diretor do Mossad entre 1989 e 1996, diz diante das câmeras que não pode falar sobre o assunto porque ele é um “tabu” e porque, passados tantos anos, já não se lembra dos detalhes.
Já Yaacov Peri, ex-chefe do Shin Bet, serviço de inteligência interna de Israel, e Yoram Schweitzer, diretor do Programa de Terrorismo do Instituto Nacional de Estudos de Segurança, sustentam a hipótese de que o Hezbollah esteve por trás do atentado.
“No início, ninguém sabia que se tratava de um atentado terrorista e, por isso, o caso não foi investigado como tal. Quando isso ficou claro, a partir do corpo do homem-bomba e de outras evidências periciais, as investigações começaram. Mas o tempo transcorrido […] reduziu as chances de encontrar provas. O tempo é um fator crucial”, afirmou Schweitzer no documentário.
Peri, por sua vez, ressalta que, embora “qualquer atentado terrorista no mundo seja de interesse da comunidade de inteligência israelense”, a investigação esteve sob responsabilidade das autoridades panamenhas que, segundo ele, “fizeram um trabalho competente, em cooperação com as autoridades argentinas”.
A prisão de Hage Jalil, em novembro de 2025, colombiano naturalizado venezuelano e de ascendência libanesa, na ilha de Margarita, um dos principais destinos turísticos da Venezuela, deu novo impulso às investigações.
Jalil foi extraditado da Venezuela para o Panamá em abril deste ano e é investigado por suposta participação no que a Promotoria Especializada em Homicídios trata como “um ato com características convencionais de terrorismo”.
“Essa extradição envia uma mensagem clara: o governo de Donald Trump tem memória longa e alcance ainda maior”, afirmou na ocasião o embaixador Kevin Marino Cabrera, em comunicado.
“Esperamos que o processo judicial e sua eventual conclusão tragam paz às famílias das vítimas, que esperam por justiça há mais de 30 anos”, acrescentou Cabrera.
À BBC News Mundo a promotora responsável pelo caso, Geomara Guerra, afirmou que a equipe agora trabalha para preencher as lacunas da investigação, reforçar pontos que ainda precisavam ser esclarecidos e reunir novos “elementos essenciais para esclarecer o caso”.
“Conseguimos identificar os locais por onde o homem que supostamente levava o explosivo passou antes do atentado e também relacionamos outros dois suspeitos ao caso”, explica Guerra. Mas ela reconhece que o intervalo de mais de três décadas desde a explosão impõe obstáculos à investigação.
“Estamos fazendo um grande esforço investigativo, mas muitos elementos já não podem ser recuperados, como os meios de comunicação usados na época e os registros das ligações.”

Crédito, EPA/Shutterstock
Entre as evidências reunidas está um comunicado supostamente publicado pelo grupo Ansar Allah em um jornal libanês cinco dias após o atentado, no qual a organização reivindica a autoria do ataque. Segundo Guerra, o documento reforça a única linha de investigação atualmente seguida pelo Ministério Público.
O caso também reacendeu o debate sobre a possível atuação de redes militantes transnacionais na América Latina. Há anos, autoridades dos EUA e de outros países da região alertam que grupos como o Hezbollah mantêm redes de apoio financeiro e logístico em partes do continente, muitas vezes por meio de empresas e de comunidades da diáspora.
Em audiência realizada em 27/4, Hage Jalil optou por permanecer em silêncio, direito garantido pela Constituição. Sua defesa, por sua vez, pediu o reconhecimento da prescrição da ação penal sob o argumento de que já se passaram mais de 20 anos desde os fatos e de que esse seria o prazo máximo de punição previsto no Código Penal em vigor na época do atentado.
No início de junho, a pedido do Ministério Público, o Tribunal Superior de Liquidação de Causas Penais do Primeiro Distrito Judicial do Panamá identificou o processo como um “caso complexo”.
Com a decisão, os promotores ganharam mais 12 meses para concluir a investigação antes de apresentar denúncia contra os investigados e solicitar a abertura do julgamento.
“Mas isso não significa que precisaremos usar necessariamente todo esse prazo. Nossa intenção é concluir essa etapa o mais rápido possível”, disse Guerra.
O impacto duradouro da violência
“Mas, depois de 32 anos e de tantas investigações, ainda é possível reunir novas provas?”, questionou Marta Márquez, mãe do jovem piloto Tony, uma das vítimas do voo 901 da Alas Chiricanas.
“Nunca tive esperança de que alguém fosse preso ou de que o caso voltasse a ser investigado. Achei que tudo terminaria daquele jeito”, disse Márquez.
“Por isso, fiquei muito feliz ao saber que o caso foi reaberto e que talvez a justiça finalmente seja feita. Isso nos daria algum conforto, embora não traga nossos entes queridos de volta.”

Crédito, Cortesia Ministério Público do Panamá
Benaim, por sua vez, ressalta que ainda há muitas perguntas sem resposta e um caso a ser esclarecido. “Qual foi a motivação? O que se pretendia? Por que o Panamá?”, repete.
Para o cineasta, as feridas emocionais também continuam abertas. Ele conta que percebeu isso ao exibir o documentário e acompanhar a reação do público, tanto de quem se lembrava perfeitamente do atentado quanto de quem nunca tinha ouvido falar dele.
“Era isso que eu queria: entender por quê, mas também mostrar que acontecimentos como esse deixam marcas profundas, atravessam gerações e mudam vidas”, afirmou Benaim.
“Não sou muito de tirar uma lição de tudo isso, mas essa ideia de que a violência atinge todos nós, por mais clichê que pareça, é verdadeira. A gente só entende o tamanho do impacto que a violência tem sobre uma sociedade quando a vivencia”, afirmou o cineasta.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


