5:30 PM
1 de março de 2026

Governo Lula cria brecha para ‘sigilo eterno’ em cartas oficiais do presidente

Governo Lula cria brecha para ‘sigilo eterno’ em cartas oficiais do presidente

PUBLICIDADE



ITALO NOGUEIRA
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – O governo Lula adotou entendimento que abre brecha para a imposição de um “sigilo eterno” a correspondências oficiais trocadas pelo presidente com chefes de Estado e outras autoridades internacionais.

Desde 2023, a Casa Civil negou todos os 12 pedidos, com base na Lei de Acesso à Informação (LAI), de cópias de cartas oficiais enviadas ou recebidas por Lula. O órgão argumentou que as missivas tinham caráter pessoal e, por isso, estavam protegidas pelo princípio constitucional do sigilo à correspondência.

Ao adotar essa justificativa, o governo deixa os documentos sem classificação, ficando sem qualquer prazo para liberação pública. A LAI prevê graus de sigilo de 5, 15 e 25 anos (reservado, secreto e ultrassecreto, respectivamente).

A CGU (Controladoria-Geral da União) e a CMRI (Comissão Mista de Reavaliação de Informações), que formam a terceira e última instância de recurso com base na LAI, referendaram todas as recusas submetidas.

Em nota, a Presidência da República afirmou que “correspondências privadas possuem dispositivo constitucional para a sua proteção e tratamento”. Segundo o Planalto, nenhuma carta do atual mandato foi disponibilizada para consulta pública. Ao mesmo tempo, reafirmou “o compromisso desta gestão com a transparência e a publicidade dos atos oficiais”.

A CGU disse, em nota, que o sigilo de correspondência só pode ser afastado por meio de ordem judicial ou com a concordância do remetente ou destinatário.

O sigilo à correspondência, previsto na Constituição, não tem prazo de expiração. Dessa forma, as cartas passariam a integrar o acervo privado do presidente e pertenceriam ao mandatário.

É diferente da proteção a dados pessoais, prevista na LAI, que protege a informação por até cem anos –expediente alvo de críticas na gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Especialistas ouvidos pela Folha afirmam concordar com a proteção às correspondências privadas do presidente, mesmo quando se trata de comunicação com autoridades. Contudo, apontam risco de exageros no uso do argumento.

Aplicando esse entendimento, o governo negou acesso à carta enviada pelo petista a Vladimir Putin após a reeleição do presidente russo, em março de 2024, e à missiva recebida do presidente argentino Javier Milei em abril de 2024.

O argumento também foi usado para vetar acesso às cartas enviadas por Lula aos eleitores do COI (Comitê Olímpico Internacional) em 2009, durante a campanha do Rio de Janeiro para sediar as Olimpíadas de 2016 –pedido este feito pela Folha.

Ele também foi apresentado para negar a disponibilização de uma lista das correspondências de chefes de Estados enviadas e recebidas por Lula, sem apresentação de conteúdo. Neste caso, a CGU considerou ainda que há “risco de impactos negativos às relações diplomáticas do Brasil”, por indicar quais autoridades não mantiveram contato com Lula. A decisão não indicou qualquer classificação dada aos documentos.

A garantia ao sigilo de correspondências foi usada pela primeira vez pelo governo Lula em 2023 após um pedido feito para acessar todas as cartas recebidas pelo presidente.

Ao analisar o recurso, a CGU inicialmente fez uma divisão entre as cartas de cidadãos comuns e de chefes de Estado. Enquanto as primeiras deveriam ser preservadas, as demais deveriam ser disponibilizadas, seguindo “o princípio da máxima divulgação de informações”.

A Casa Civil pediu reconsideração da decisão e, inicialmente, um parecer da AGU (Advocacia-Geral da União) manteve a decisão de publicidade. Porém, um novo documento foi elaborado adotando os argumentos que abriram brecha para o “sigilo eterno” das correspondências oficiais do presidente.

Segundo o último parecer, o fato de a correspondência ser dirigida ou enviada por um chefe de Estado por meio de canais oficiais não é suficiente para “caracterizá-la como pertencente ao patrimônio público”. Isso porque, de acordo com o entendimento, todas as atividades públicas e privadas do presidente são intermediadas por órgãos estatais.

“Ao contrário do agente público comum, cujos aspectos de sua vida pública e vida privada se desenvolvem em espaços que podem ser segmentados, a elevada posição e as responsabilidades na condução da vida nacional impõem ao Presidente da República um modo de vida em todo diferente”, diz o parecer.
O documento defende que as cartas devem ser analisadas caso a caso antes de serem disponibilizadas ao público.
O entendimento da AGU não foi adotado pelo Ministério das Relações Exteriores. A Folha localizou um pedido feito em 2024 no qual o Itamaraty disponibilizou uma carta de Lula daquele ano ao presidente da Tunísia, Kaïs Saïed.

Durante o governo Bolsonaro, o Itamaraty também liberou acesso a uma carta do ex-presidente Joe Biden ao ex-presidente brasileiro. A reportagem não localizou pedidos analisados pela Casa Civil ou pela CGU na gestão anterior.

A transparência foi uma bandeira de Lula na eleição de 2022 disputada contra Bolsonaro. O atual presidente criticava o antecessor pela imposição de sigilo considerado indiscriminado a informações públicas.

O professor da USP Marcos Augusto Perez, especialista em transparência administrativa, afirma concordar com o entendimento da AGU. Ele defende a análise caso a caso porque há possibilidade de o presidente tratar de assuntos pessoais com outros chefes de Estado. No entanto, aponta que essa previsão pode levar a exageros e virar “uma desculpa fácil”.

“Acho que até daria para considerar toda a correspondência oficial da Presidência, em determinados contextos, no mínimo reservada. Mas dizer que é tudo pessoal, é um exagero. Diz que é pessoal, assim não tem que classificar”, disse ele.

Governo afirma ter compromisso com transparência

A Presidência da República disse, em nota, que “reitera o compromisso desta gestão com a transparência e a publicidade dos atos oficiais, em estrita observância à legislação vigente”.

“As correspondências privadas possuem dispositivo constitucional para a sua proteção e tratamento. Dessa forma, em consonância com o sigilo de correspondência, previsto pela Constituição Federal (Art. 5º, inciso XII), pela Lei de Acesso à Informação (Art. 31), pela Lei Geral de Proteção de Dados (Art. 2º) e por outros documentos, nenhuma carta dirigida ao presidente da República foi disponibilizada para consulta do público durante o atual mandato”, diz a nota.

O governo federal informou ainda que “uma amostragem das cartas recebidas no período de 2003 a 2010” foi enviada ao Arquivo Nacional após o fim dos dois primeiros mandatos de Lula. Declarou também que “não há destinação a acervo público no exercício do mandato”.

A CGU declarou que o sigilo à correspondência “só seria afastado por meio de ordem judicial ou da concordância do remetente ou destinatário”. “Este entendimento está em acordo com a Comissão Mista de Reavaliação de Informações, conforme a Decisão CMRI nº 27/2025/CMRI/CC/PR.”



Fonte Noticias ao Minuto

Leia mais

Rolar para cima