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14 de março de 2026

Complicações em procedimentos estéticos disparam – 14/03/2026 – Equilíbrio e Saúde

Complicações em procedimentos estéticos disparam – 14/03/2026 – Equilíbrio e Saúde

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O número de denúncias relacionadas a complicações em procedimentos estéticos cresce de forma acelerada no Brasil, acompanhando a expansão de um mercado de cerca de R$ 40 bilhões anuais que consolidou o país como um dos líderes mundiais do setor.

Dados do Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo) mostram que, apenas entre médicos, o total de sindicâncias instauradas saltou de 2.830 em 2023 para 4.002 em 2025, alta de cerca de 41% em dois anos.

A escalada também envolve procedimentos feitos por profissionais não médicos. Desde 2024, o Cremesp passou a receber relatos de pacientes que sofreram danos após intervenções estéticas invasivas feitas por dentistas, biomédicos, fisioterapeutas e outros profissionais.

No primeiro ano, foram registradas 248 denúncias. Em 2025, o número praticamente dobrou, chegando a 472. Juntas, as queixas resultaram em 44 ações judiciais. Segundo o conselho, a maioria envolve preenchimentos faciais e aplicações de substâncias para modelagem corporal.

Os dados estão longe de refletir a dimensão real das complicações. Não há um banco de dados nacional que reúna informações de todas as vigilâncias sanitárias estaduais e municipais. Mas um relatório da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) de 2025, que reúne denúncias de serviços em saúde em geral, mostra que clínicas de estética lideram as queixas, com 52% da amostra.

Para o cirurgião plástico Alexandre Kataoka, conselheiro do Cremesp responsável pela Câmara Técnica de Cirurgia Plástica, a alta está ligada à banalização desses procedimentos, impulsionada pelas redes sociais e pela percepção de que se trata de um mercado lucrativo e de baixo risco profissional.

“Após a pandemia, isso só cresceu. As denúncias envolvendo procedimentos estéticos feitos por não médicos explodiram. Vão de biomédicos, enfermeiros, farmacêuticos e dentistas a cabeleireiros”, afirma. “Para muitos, virou uma fonte aparentemente fácil de dinheiro, com pouca percepção das responsabilidades envolvidas.”

O Guia da Medicina Segura, lançado pelo CFM (Conselho Federal de Medicina), indica que entre 2012 e 2023 foram registrados 9.566 casos de exercício ilegal da medicina no país. Cerca de 61% delas estão ligadas a procedimentos estéticos.

“A grande preocupação é que muitos desses procedimentos invasivos estão sendo realizados por pessoas não qualificadas”, diz o dermatologista Carlos Barcaui, presidente da SBD (Sociedade Brasileira de Dermatologia). Entre os casos identificados no guia do CFM, 42% envolvem pessoas sem qualquer formação em saúde, enquanto 33% são profissionais de outras áreas.

A expansão do mercado também se reflete nos consultórios de especialistas que recebem pacientes com complicações. “Antes era raro eu atender casos de procedimentos malsucedidos feitos por outros profissionais. Hoje isso acontece toda semana”, diz Kataoka, que também atua como perito judicial em ações envolvendo erro médico.

Entre as complicações mais frequentes estão infecções, necroses, deformidades permanentes e problemas sistêmicos graves. Procedimentos injetáveis, especialmente aplicações de toxina botulínica e preenchimentos faciais, lideram as queixas. Segundo Barcaui, eles rompem a barreira da pele e podem atingir vasos sanguíneos, nervos e tecidos profundos.

“Quando há injeção de substâncias no organismo ou intervenção em camadas profundas da pele, estamos falando de procedimentos estéticos invasivos, que exigem formação médica para serem realizados com segurança”, afirma o dermatologista.

Kataoka relata casos de pacientes que desenvolveram complicações graves após a aplicação de substâncias como o polimetilmetacrilato (PMMA), material usado para tratar lipodistrofia associada ao HIV, mas que passou a ser aplicado em volumes muito maiores para fins estéticos.

“Hoje recebemos pacientes com granulomas extensos que elevam muito o cálcio no organismo e podem levar à insuficiência renal”, afirma. “Já atendi casos em que a pessoa não pode sequer entrar na fila de transplante porque o novo rim também seria comprometido.”

Entidades médicas brasileiras, como CFM, SBD e SBCP (Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica), posicionam-se contra o uso do PMMA para fins estéticos e pediram à Anvisa a proibição total.

Em nota, a Anvisa afirma que realizou um processo de reavaliação do perfil de risco e benefício desses produtos e concluiu que o PMMA é aceitável quando utilizado conforme as indicações aprovadas e sob condições adequadas de uso. Segundo a agência, não há ação em andamento para proibir a substância.

A Anvisa autoriza o uso do PMMA apenas para preenchimento cutâneo ou muscular com finalidade corretiva ou reparadora, por motivação de saúde e sob prescrição médica. “Não há indicação para aumento de volume meramente estético”, afirma.

Nas redes sociais, há inúmeros relatos de mulheres que utilizaram a substância para fins estéticos e tiveram complicações. Entre elas está a influenciadora Maíra Cardi, que afirmou estar com o rosto deformado, com risco de necrose, devido ao produto e que deve passar por cirurgia extensa para retirá-lo.

Desde 2018, o Brasil discute um projeto de lei que tornaria obrigatória a notificação de complicações ligadas a procedimentos estéticos. Em 2023, a proposta foi aprovada em caráter conclusivo pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara dos Deputados e enviada ao Senado.

O debate sobre a segurança desses procedimentos não é exclusivo do Brasil. Nos últimos anos, países como Austrália e Reino Unido adotaram ou estudam adotar regulamentações mais rígidas após o aumento de complicações graves.

A agência reguladora australiana (Australian Health Practitioner Regulation Agency) criou diretrizes que entraram em vigor em setembro de 2025. Entre as medidas estão a exigência de experiência clínica mínima para profissionais que realizam injetáveis estéticos, restrições à publicidade nas redes sociais e a proibição da prescrição remota de substâncias como toxina botulínica.

No Reino Unido, o governo propôs em 2025 um novo sistema de licenciamento para clínicas e profissionais de estética baseado em um modelo de “semáforo”, que classifica os procedimentos por nível de risco e estabelece exigências de qualificação e certificação profissional para cada um deles. O procedimento estético conhecido como “Brazilian butt lift” (BBL), procurado por quem deseja aumentar os glúteos, é um dos que estão na mira de parlamentares e do governo britânico.

No Brasil, entidades médicas defendem que o debate sobre a regulação do setor avance. No próximo dia 20 de março, especialistas, autoridades médicas e representantes do Judiciário se reunirão em um fórum promovido pela SBD para discutir o aumento de complicações associadas a procedimentos estéticos.

Para Barcaui, enfrentar o problema exige mudanças legais, fiscalização e também participação da sociedade. “O exercício ilegal da medicina é crime e pode causar danos graves, inclusive levar à morte. A pena hoje é relativamente branda e precisa ser endurecida”, afirma. População bem infornada também é fundamental. “Os pacientes precisam buscar profissionais qualificados e denunciar irregularidades.”



Fonte.:Folha de S.Paulo

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