12:34 PM
16 de março de 2026

Entenda a nova diretriz da OMS para lidar com “pandemia de infertilidade”

Entenda a nova diretriz da OMS para lidar com “pandemia de infertilidade”

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Durante muito tempo, a infertilidade foi tratada como um problema de foro íntimo, quase sempre restrito ao âmbito do casal. Hoje, os dados mostram outra realidade: um fenômeno global, crescente e multifatorial, a ponto de ser considerada uma pandemia. 

Estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que uma em cada seis pessoas em idade reprodutiva enfrenta dificuldades para engravidar ao longo da vida, número que se repete de forma semelhante em países ricos e em nações de baixa e média renda.

Esse cenário levou a mesma OMS a publicar uma diretriz inédita e, mais do que isso, a reforçar um ponto essencial: infertilidade é uma condição de saúde, não uma escolha nem uma consequência moral ou comportamental.

Essa mudança conceitual tem implicações profundas para políticas públicas, acesso a tratamentos e a forma como a sociedade deve enxergar o desafio. 

Mas o que está por trás desse aumento expressivo nos casos de infertilidade?

Por dentro das causas

Não há uma causa isolada, mas a sobreposição de fatores biológicos, ambientais e culturais.

Parte da resposta está nas transformações sociais das últimas décadas. A decisão de adiar a maternidade e a paternidade, impulsionada por motivos como carreira, estabilidade financeira e mudanças nos modelos familiares, tem impacto direto nessa história.

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Do ponto de vista biológico, a idade continua sendo um dos fatores mais determinantes, especialmente para as mulheres, cuja reserva ovariana diminui progressivamente a partir dos 35 anos. No entanto, reduzir a infertilidade apenas à idade seria uma simplificação perigosa

Muitas pessoas chegam mais tarde à tentativa de engravidar sem nenhuma orientação prévia sobre fertilidade ou planejamento reprodutivo, o que revela uma falha estrutural na educação em saúde.

O estilo de vida contemporâneo também exerce papel central aqui. O aumento do sedentarismo, da obesidade, do consumo de alimentos ultraprocessados, do tabagismo e do uso abusivo de álcool afeta tanto a fertilidade feminina quanto a masculina.

Nos homens, observa-se uma queda global na concentração e na qualidade dos espermatozoides, fenômeno já apelidado de Spermageddon (em referência ao Armageddon) e associado a influências ambientais, hormonais e metabólicas.

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Esse fenômeno vem sendo descrito por estudos em diferentes países, com impacto potencial não apenas na fertilidade individual, mas na demografia futura, reacendendo o debate sobre um aspecto até então negligenciado.

A exposição a poluentes é outro ponto de alerta. Substâncias presentes no ar, em plásticos, pesticidas, cosméticos e até na água podem interferir no equilíbrio hormonal, prejudicando a ovulação, a formação de espermatozoides e a implantação do embrião. Embora os efeitos individuais sejam difíceis de mensurar, o impacto coletivo ao longo do tempo é cada vez mais evidente

Além disso, condições de saúde frequentemente ignoradas contribuem para o problema, caso de endometriose, síndrome dos ovários policísticos, infecções sexualmente transmissíveis, varicocele, doenças autoimunes e distúrbios hormonais e metabólicos.

Quais são as novas recomendações

Diante desse panorama complexo, as novas orientações da OMS representam um avanço importante. Ao reconhecer a infertilidade como uma condição de saúde que merece atenção integral, a entidade reforça a necessidade de ampliar o acesso ao diagnóstico precoce e aos tratamentos de reprodução assistida, incluindo técnicas como a fertilização in vitro (FIV).

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A recomendação é a seguinte: os sistemas de saúde devem incorporar o cuidado reprodutivo como parte da atenção básica e especializada, e não tratá-lo como um luxo ou um serviço opcional.

O olhar médico e educacional sobre o tema é cada vez mais relevante em um mundo dominado por informação rápida na internet, em que blogueiros e empresas lançam produtos voltados à fertilidade com o objetivo de ludibriar pessoas que estão em sofrimento por não conseguir ter um filho.

A OMS também enfatiza o cuidado centrado na pessoa, e não apenas no resultado reprodutivo. Isso significa considerar o impacto emocional, psicológico e social da infertilidade, que muitas vezes vem acompanhada de ansiedade, depressão, estigmatização e sofrimento silencioso.

O acolhimento adequado e a informação de qualidade são tão importantes quanto os exames e os procedimentos médicos. As orientações da entidade ainda reforçam o papel da prevenção. Falar sobre fertilidade antes que o problema se instale ainda é um tabu, mas deveria fazer parte das consultas de rotina.

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Avaliar fatores de risco, guiar o planejamento reprodutivo e conversar sobre hábitos de vida e saúde sexual são estratégias que podem reduzir significativamente a necessidade de intervenções mais complexas e caras no futuro. Ao trazer a infertilidade para o centro do debate público, a OMS lança um convite à mudança de mentalidade. 

Além de ajudar quem já enfrenta dificuldades para engravidar, é fundamental repensar o cuidado reprodutivo de forma ampla, integrada e baseada em evidências científicas. Em um mundo em que as escolhas reprodutivas são cada vez mais influenciadas por fatores sociais, econômicos e ambientais, ignorar essa discussão é fechar os olhos para uma das grandes questões de saúde do nosso tempo. 

A pandemia de infertilidade não faz barulho, não lota serviços de emergência nem provoca surtos imediatos. Mas seus efeitos são profundos, duradouros e atingem milhões de pessoas.

Reconhecê-la, compreendê-la e encará-la com políticas públicas, informação e acesso ao cuidado é um passo crítico para garantir o direito à saúde reprodutiva nas próximas décadas.

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Evoluímos muito em técnicas voltadas à reprodução assistida, mas ainda é necessário tornar os tratamentos mais acessíveis. O futuro também depende disso

*Rodrigo Rosa é médico especialista em reprodução humana, diretor da clínica Mater Prime e do laboratório Mater Lab, em São Paulo, e membro da Associação Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) e da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH)

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Fonte.:Saúde Abril

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