Um estudo conduzido por pesquisadores do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, em parceria com o Departamento de Gerontologia da EACH-USP e o Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento, identificou benefícios importantes durante um programa brasileiro de estimulação cognitiva, em idosos escolarizados sem comprometimento cognitivo.
O trabalho foi publicado em janeiro deste ano na revista científica International Psychogeriatrics e é considerado o primeiro ensaio clínico randomizado de longa duração sobre estimulação cognitiva realizado no Brasil com idosos saudáveis.
De acordo com os pesquisadores, os participantes do método chamado Supera, que seguiram o protocolo, apresentaram redução de 60% nas queixas cognitivas, melhora aproximada de 45% na memória ao longo de um ano, considerando funções executivas e cognição geral, e queda de 29% nos sintomas depressivos.
A gerontóloga Thais Bento, autora principal do estudo e pesquisadora do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, afirma que os resultados indicam impactos positivos amplos na vida dos participantes. Segundo ela, os dados demonstram que idosos que participam das atividades com o método apresentam vantagens significativas para a qualidade de vida de forma geral.
O estudo recrutou 207 pessoas com 60 anos ou mais. Os participantes foram distribuídos aleatoriamente em três grupos: um grupo experimental, que participou do programa; um grupo controle ativo, que recebeu aulas sobre envelhecimento saudável; e um grupo controle passivo, que não recebeu intervenção.
As avaliações ocorreram ao longo de dois anos, aos 6, 12, 18 e 24 meses, o que permitiu acompanhar a evolução dos resultados ao longo do tempo.
Segundo os pesquisadores, o desenho do estudo, com metodologia randomizada, controlada e cega, além do acompanhamento por especialistas, garante maior robustez científica aos resultados. Esse tipo de ensaio clínico é considerado padrão-ouro em pesquisas sobre intervenções em saúde.
Os resultados também indicaram benefícios além da memória. Houve melhora em habilidades relacionadas às chamadas funções executivas, como planejamento, organização, tomada de decisões, estruturação do pensamento e fluidez na comunicação.
Os autores destacam que a estimulação cognitiva pode contribuir para a saúde mental, para a preservação da autonomia e para a promoção de um envelhecimento mais saudável, funcionando como uma estratégia preventiva não farmacológica.
Pesquisas internacionais reforçam a importância desse tipo de abordagem
Estudos apresentados em fevereiro durante painéis da Alzheimer’s Association International Conference, em um debate sobre a América Latina realizado no Uruguai, apontam que cerca de 45% dos casos de Alzheimer no mundo poderiam ser evitados com a redução de fatores de risco ao longo da vida. Na América Latina, essa estimativa chega a 56%.
Para os pesquisadores, os dados reforçam a relevância de programas de prevenção que combinem diferentes estratégias de saúde pública, incluindo a estimulação cognitiva.
A publicação do estudo em um periódico internacional de alto impacto amplia a presença do método Supera na literatura científica e ajuda a preencher uma lacuna nas pesquisas nacionais sobre envelhecimento ativo, oferecendo evidências que podem orientar políticas e práticas voltadas à qualidade de vida da população idosa.
Fonte: CNN Brasil


