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19 de abril de 2026

De Fortaleza a Auschwitz – 19/04/2026 – Marcelo Leite

De Fortaleza a Auschwitz – 19/04/2026 – Marcelo Leite

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Em nove dias em Cambridge, Massachusetts (EUA), topei com duas referências espantosas a campos de concentração. A primeira: “currais do governo” construídos em Fortaleza nas secas de 1915 e 1932. A outra: um sobrevivente de Auschwitz que buscou tratamento com LSD para a “síndrome KZ”.

Os campos cearenses compõem a pesquisa da historiadora Kenia Sousa Rios, do Centro de Humanidades da Universidade Federal do Ceará. Ela participava de um painel sobre caatinga no “Lemann Dialogue 2026: Seis Biomas, Múltiplas Realidades, Um País”, na Universidade Harvard.

Na mesa estavam Daniela Nogueira, da Universidade de Brasília, e Washington de Franca Rocha, da Universidade Estadual de Feira de Santana. Ao final, Marcia Castro, do Centro de Estudos Latino-Americanos David Rockefeller de Harvard, perguntou quem já tinha ouvido falar dos currais; ninguém levantou a mão.

A seca de 1877 foi uma das piores no semiárido, tangendo 100 mil refugiados para a capital do Ceará, que tinha 25 mil habitantes. Houve pânico com a invasão dos bárbaros, como se dizia. Em 1878 chegaram a ocorrer mil mortes num dia, relatou Rios.

Na seca de 1915, narrada em “O Quinze” por Rachel de Queiroz, o governo cearense reagiu com um primeiro campo de concentração para encurralar famintos, 18 anos antes da abertura de Dachau por nazistas.

Na de 1932, a segregação materializou-se em sete currais, com confinamento de 70 mil flagelados. Amontoavam-se até 20 mil retirantes em espaços para 2.000, condições em que proliferavam epidemias de varíola e febre amarela.

O semiárido já não exibe mais essa face da sociedade brasileira. Apesar de ainda concentrar a maior parte dos pobres do país, políticas de redução da miséria permitem que ninguém mais morra de fome nas estiagens a cada El Niño, como o que agora se avizinha.

Mas do que seremos capazes diante do flagelo se, confirmadas previsões científicas, o aquecimento global esquentar a caatinga em 5ºC e diminuir em 40% as chuvas até o final do século? Mantemos tradição em crueldade, basta ver a adesão à letalidade policial e a propensão a eleger um filhote Bolsonaro após a gestão genocida da pandemia pelo pai.

Lembremos Yehiel De-Nur, ou Ka-Tzetnik 135633, pseudônimo do escritor judeu que esteve em Auschwitz. Ouvi falar dele por Patricia Kubala na conferência “Psychedelic Intersections: Bridging Humanities, Religion and Law” (intersecções psicodélicas: fazendo a ponte entre humanidades, religião e direito), no Centro para o Estudo de Religiões do Mundo (CSWR, em inglês) de Harvard.

“Ka-Tzetnik” remete a KZ, campo de concentração na abreviação alemã também usada em ídiche. O interno 135633 testemunhou no julgamento de Nuremberg em 1961, onde sofreu famoso colapso. Nos anos 1970, buscou tratamento com LSD para traumas na clínica do psiquiatra holandês Jan Bastiaans.

De-Nur morreu em 2011, aos 92 anos. Em 1983, durante entrevista ao programa de TV dos EUA 60 Minutes, explicou o desmaio 22 anos antes pelo choque de entender, ali, que Adolf Eichmann não era só aquele oficial nazista todo-poderoso, mas uma pessoa como qualquer outra:

“Fiquei com medo de mim mesmo”, disse então De-Nur. “Vi que sou capaz de fazer isso [Auschwitz]. Sou… exatamente como ele.”

O jornalista viajou a San Franciso a convite do Instituto Chacruna


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Fonte.:Folha de S.Paulo

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