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Aos 39 anos, o camisa 10 segue sendo o principal nome da seleção argentina, briga novamente pela artilharia do torneio e amplia uma coleção de recordes construída ao longo de mais de duas décadas de carreira. Para muitos analistas, a Copa disputada nos Estados Unidos, México e Canadá representa mais um capítulo de uma trajetória que já o colocou no centro da maior discussão do futebol: afinal, Messi é o maior jogador de todos os tempos?
A pergunta acompanha o argentino desde muito antes do título conquistado no Catar, em 2022. Na Argentina, porém, ela ganhou contornos particulares. Durante anos, a comparação foi com Diego Maradona — o capitão da conquista de 1986 e personagem cuja influência transcende o esporte.
“Maradona era o rei da Argentina. E um rei não é eleito, ele simplesmente representa o país”, resume o jornalista espanhol Guillem Balagué, um dos principais biógrafos de Messi, em entrevista à BBC Brasil.
A percepção sobre Messi começou a mudar com a conquista da Copa América de 2021 e praticamente desapareceu após o Mundial do Catar, quando Messi liderou a Argentina ao tricampeonato mundial. Para Balagué, entretanto, o título não encerrou completamente a discussão.
“Hoje Messi já superou Maradona como jogador de futebol. Mas haverá argentinos que continuarão dizendo que Maradona os representa melhor.”
Fora do país, há quem vá além e sustente que Messi já ocupa um lugar acima até mesmo daquele reservado por décadas ao brasileiro Pelé, o “Rei do Futebol”.

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Mais do que futebol
Se os números fossem suficientes para definir quem foi o maior jogador da história, talvez o debate já tivesse terminado.
Messi é o jogador com mais Bolas de Ouro da história, conquistou praticamente todos os títulos possíveis por Barcelona, Paris Saint-Germain, Inter Miami e seleção argentina, levantou a Copa América e a Copa do Mundo e acumula recordes de gols e assistências tanto por clubes quanto pela Argentina.
Mesmo assim, durante anos, uma parcela dos argentinos continuou colocando Maradona acima dele.
Para Guillem Balagué, jornalista espanhol que acompanha a carreira de Messi há mais de duas décadas e escreveu duas biografias do camisa 10, a explicação está no fato de que Maradona se transformou em um símbolo da identidade argentina.
“A Argentina abraçou durante décadas a ideia de ser um país especial, diferente dos demais. O futebol virou uma das formas de confirmar essa grandeza”, disse Balagué à BBC Brasil.
Maradona representava, nesse contexto, muito mais do que um craque.
“Ele veio de uma origem muito humilde, enfrentava qualquer autoridade, podia dizer ao papa ou ao presidente o que pensava. Era irreverente, genial, tinha essa mistura de ousadia e carisma que muitos argentinos enxergam como parte de sua própria identidade.”
Messi seguiu um caminho diferente.
Discreto fora de campo, avesso a declarações políticas e pouco interessado em construir uma persona pública, passou boa parte da carreira dizendo que queria apenas jogar futebol.
Essa diferença também aparece na avaliação do ex-jogador australiano Craig Foster.
Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, Foster afirmou preferir Maradona justamente porque o argentino “abria a boca” para falar sobre questões que iam além do esporte, enquanto Messi representa um perfil mais próximo do atleta moderno, focado quase exclusivamente na carreira esportiva.
“Não gosto tanto de Messi quanto de Maradona porque ele nunca abre a boca. É como David Beckham ou Cristiano Ronaldo: atletas modernos que não dizem nada sobre nada. É como se o mundo fora do futebol não existisse”, afirmou Foster ao Guardian.
Para Balagué, porém, a personalidade reservada de Messi deixou de ser um obstáculo à medida que ele acumulou conquistas com a seleção.
Com a Copa América de 2021 e, principalmente, após o título mundial no Catar muitos argentinos enxergaram novas características em seu capitão.
Durante aquele Mundial, Messi protagonizou momentos incomuns para quem havia construído a imagem de um líder silencioso — discutiu com adversários, provocou rivais e assumiu um protagonismo emocional que muitos associavam apenas a Maradona.
“Ele mostrou novas camadas da personalidade dele. Passou a ser visto como o general da equipe, algo que também acontecia com Maradona”, afirma Balagué.


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Um jogo diferente
Há outro fator que ajuda a explicar por que dificilmente haverá consenso sobre quem foi o maior jogador da história: o futebol mudou profundamente nas últimas cinco décadas.
Quando Pelé conquistou sua primeira Copa do Mundo, em 1958, os jogadores ainda viajavam em voos comerciais comuns, enfrentavam gramados irregulares, arbitragem sem auxílio de vídeo e uma preparação física que hoje parece rudimentar.
Na época de Maradona, nos anos 1980, o futebol já era um espetáculo global, mas ainda distante da indústria bilionária que se consolidaria nas décadas seguintes.
Messi, por sua vez, construiu praticamente toda a carreira em um cenário completamente diferente.
Clubes se transformaram em empresas multinacionais, receitas de direitos de transmissão e patrocínio cresceram exponencialmente, departamentos médicos e de análise de desempenho passaram a acompanhar cada detalhe da preparação dos atletas, enquanto nutricionistas, fisiologistas, psicólogos e especialistas em recuperação física prolongaram carreiras que antes costumavam terminar muito mais cedo.
A tecnologia também alterou a forma como o jogo é disputado e analisado.
Hoje, praticamente todas as partidas são gravadas por dezenas de câmeras, permitindo análises detalhadas de desempenho e reduzindo o espaço para lances que passariam despercebidos em outras épocas.
O VAR modificou decisões de arbitragem, enquanto estatísticas avançadas passaram a medir desde pressão sem bola até expectativa de gols.

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Ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil esconder defeitos.
Pelé e Maradona atuaram em uma época em que boa parte de suas partidas sequer era televisionada internacionalmente. Messi, em contraste, teve praticamente toda a carreira registrada em alta definição, analisada em tempo real por especialistas, redes sociais e milhões de torcedores.
Essa exposição permanente ajuda a explicar por que comparações entre gerações costumam esbarrar em um problema sem solução: não existe um ambiente comum.
O próprio ex-atacante Ronaldo defendeu recentemente que qualquer tentativa de definir quem foi o maior depende, antes de tudo, dos critérios utilizados.
Em entrevista à Romário TV, o ex-atacante brasileiro afirmou que Messi é “genial demais” e integra seu grupo dos cinco maiores jogadores da história, mas disse não saber se o argentino supera Maradona.
“A gente tem que procurar um critério para discutir isso. Como faz para escolher sem critério?”, afirmou.
A pergunta resume um dos principais dilemas dessa discussão.
É possível comparar jogadores separados por mais de meio século, submetidos a regras diferentes, calendários diferentes, formas distintas de treinamento e até expectativas sociais completamente opostas?
Talvez por isso o debate sobreviva a cada geração, e permaneça aberto mesmo diante de carreiras consideradas extraordinárias.
O que pesa a favor de Messi
Se não há consenso sobre quem foi o maior jogador da história, há alguns argumentos que aparecem com frequência entre aqueles que colocam Messi no topo.
O primeiro é a longevidade.
Enquanto Pelé e Maradona tiveram picos de desempenho relativamente concentrados, Messi permaneceu entre a elite do futebol mundial por cerca de duas décadas, conquistando títulos nacionais, continentais e internacionais em diferentes fases da carreira.
Essa consistência é frequentemente apontada como um de seus maiores diferenciais. Mas ela também ajuda a ilustrar como o futebol mudou.
O argentino construiu praticamente toda a carreira em uma indústria que investe bilhões de dólares em medicina esportiva, fisiologia, nutrição, análise de desempenho e recuperação física. Esses avanços ajudaram a prolongar carreiras e permitiram que atletas de alto rendimento competissem em nível de elite até idades que, décadas atrás, seriam consideradas improváveis.
Ao mesmo tempo, especialistas ressaltam que a evolução da estrutura não diminui o mérito individual. Se mais jogadores passaram a atuar por mais tempo, poucos conseguiram manter um nível de excelência comparável ao de Messi durante tantos anos.
Outro argumento citado por admiradores do argentino é a consistência em diferentes contextos.

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Para Thierry Henry, ex-companheiro de Messi no Barcelona, parte dessa regularidade pode ser explicada por uma competitividade incomum.
Em entrevista reproduzida pelo jornal espanhol Marca, Henry lembrou dos treinamentos no clube catalão e contou que bastava Messi se sentir injustiçado para transformar completamente sua postura.
“Não desperte a fera”, resumiu o francês, recordando episódios em que o argentino marcava vários gols em sequência depois de considerar que uma falta não havia sido marcada.
Nem todos, porém, evitam estabelecer uma hierarquia. Em entrevista à Rádio Villa Trinidad, da Argentina, em 2021, o ex-jogador brasileiro Tostão afirmou que Messi já havia superado Maradona, mas ainda ficava atrás de Pelé.
“Tenho essa opinião há muitos anos. Messi, depois de Pelé, é o melhor jogador da história. Está acima do Maradona porque é mais completo e teve uma carreira mais longa”, disse. Para Tostão, a principal diferença entre Pelé e Messi está no aspecto físico. “A única diferença entre Pelé e Messi é que Pelé era fisicamente mais forte e mais agressivo. Mais atleta. Messi é igual a Pelé em talento.”
Pelé, Maradona e Messi jogaram em épocas diferentes, sob regras diferentes, em calendários diferentes e em um esporte que se transformou profundamente ao longo das últimas décadas.
Pelé ajudou a popularizar mundialmente um futebol que ainda dava seus primeiros passos como espetáculo global. Maradona se tornou um ícone esportivo, político e cultural em uma Argentina marcada por crises e transformações. Messi consolidou sua carreira em uma era dominada pela globalização, pela ciência do esporte e pela exposição permanente das redes sociais.
É justamente essa combinação de contextos distintos que torna improvável uma resposta definitiva para a pergunta sobre quem foi o maior.
Gráfico por Caroline Souza, da Equipe de jornalismo visual da BBC News Brasil.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


