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- Author, Darío Brooks
- Role, BBC News Mundo
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A ideia apresentada pelo doutor Oswaldo Zavala costuma provocar uma reação de incredulidade ou rejeição quando é ouvida: “Os cartéis de drogas não existem”.
Para moradores de países da América Latina ou dos Estados Unidos, que recebem constantemente notícias sobre as organizações do tráfico de drogas e seus líderes, essa afirmação parece inconcebível.
Os grandes chefões foram classificados como governantes de facto de territórios, o que os transformou em protagonistas de músicas e séries de TV.
Mas Zavala, pesquisador mexicano, autor e professor da Universidade da Cidade de Nova York, sustenta que não se trata de negar os problemas em torno do narcotráfico, mas de pensar para além da ideia arraigada dos cartéis. E aponta Washington e suas agências como impulsionadoras de uma “narrativa”.
“Falamos do fenômeno do tráfico de drogas usando a linguagem que foi determinada pelas instituições que militarizaram países como o México”, afirma Zavala à BBC News Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC.
“Ao falar de cartéis, a única coisa que realmente conseguimos é legitimar a própria militarização e a violência militar que estamos sofrendo na América Latina”, acrescenta.
Zavala é crítico da estratégia militar de combate ao narcotráfico, que ele aponta como parcialmente responsável pela violência no México.
“Quando alguém diz ‘os cartéis não existem’, as pessoas até se ofendem. ‘Como você pode dizer isso?’ Esse é mais um dos sinais que mostram como o discurso está tão profundamente hegemonizado”, afirma.
Em conversa com a BBC News Mundo, Zavala expõe seu ponto de vista sobre as ideias e a linguagem que cercam os traficantes de drogas e que retrata em seu livro Os cartéis Não Existem (2026).

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BBC — Se os cartéis não existem, então o que existe? Porque há pessoas que vivenciam a violência muito de perto e que talvez se perguntem o que existe, então.
Oswaldo Zavala — Eu não estou dizendo que não há narcotráfico, que os traficantes não estão realmente aí ou que não importam. Nada disso é o que eu realmente estou dizendo.
O que digo é que, quando falamos do fenômeno do tráfico de drogas usando a linguagem que foi determinada pelas instituições que militarizaram o país, a única coisa que realmente conseguimos é legitimar a própria militarização e a violência militar que estamos sofrendo no México.
Essa linguagem é, em si mesma, o mecanismo para legitimar a violência, para nos sentirmos tão desprotegidos diante desses narcotraficantes todo-poderosos que precisamos que o Exército intervenha.
Na verdade, quando redimensionamos o tamanho daquilo que chamamos de narcotráfico, começamos a entender que, na realidade, trata-se de uma questão para se pensar temas como dependência e uso de drogas.
No México, isso não deveria ser visto como um problema de segurança nacional, o que faz parte da agenda dos EUA desde os anos 1980, mas sim como algo que deveria estimular esse debate entre nós.
O que temos de fazer é voltar a repensar nossa política antidrogas e nossa política de segurança, sem o Exército sendo mobilizado a todo momento, sem o Exército patrulhando com pouca fiscalização, sem o Exército ocupando espaços da sociedade civil.
Temos de discutir quais são as verdadeiras razões do descontentamento social vivido pelo México.

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BBC — Algo que o senhor defende é que os chefões do tráfico não são tão poderosos quanto parecem, mas, na realidade, eles têm e exercem um poder importante nos níveis regional, nacional e local.
Zavala — Há muitas coisas e dinâmicas de violência que são muito complexas. Mas, muitas vezes, o que vemos em alguns dos contextos mais violentos, sobretudo em Jalisco, Tamaulipas e Guerrero, é a ideia de um cartel ocupando o Estado.
Mas o que vemos com muita preocupação, e não sou só eu quem diz isso, é também um processo de paramilitarização que não estamos realmente compreendendo.
O que não estamos vendo é como operam esses grupos paramilitares que muitas vezes vemos exercendo certa propaganda nas redes sociais, aparecendo com equipamento militar, veículos blindados etc., fazendo um uso espetacularizado da violência.
Precisamente, essa violência se apresenta diante de nós como um espetáculo. Depois que supostamente 250 grupos de pessoas saem às ruas para destruir coisas, incendiar carros ou estabelecimentos comerciais etc., protestando contra a morte de “El Mencho”, a única coisa que resta à população, atônita, é pedir mais militarização.
E isso me preocupa muito, porque, a partir daí, presume-se que a violência vivida pelo país é praticada estritamente por traficantes, o que não sabemos.
Pressupomos que a solução para essa violência é o Exército, o que sabemos que não é verdade. Pelo contrário, esse é um dos principais problemas.
Então, acredito que é preciso ir além do medo, da provocação, da aparição visual escandalosa desses traficantes armados que inundam as redes sociais e tentar compreender verdadeiramente esses processos de violência.

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BBC — E os próprios traficantes não acabam se assumindo como todo-poderosos?
Zavala — Assumem isso porque a ideia de narco, de cartel, está tão internalizada em todos nós que os próprios criminosos gostariam de comprová-la.
No meu livro Os Cartéis Não Existem, lembro, por exemplo, do momento irônico, bastante triste e até patético em que “El Chapo” se encontra com Kate del Castillo [2015], a atriz que protagonizou a famosa novela Rainha do Sul.
E ele tem a ilusão de que ela faça um filme que transforme em realidade, em um set de filmagem, o mito de “El Chapo” Guzmán.
Esse momento é muito eloquente e muito triste na forma como a política antidrogas opera, porque esse encontro ocorre, na verdade, em um plano estritamente simbólico, no qual “El Chapo” quer conhecer a Rainha do Sul e a Rainha do Sul quer conhecer “El Chapo”, que também é outro mito, concebido por instituições oficiais.
Assim, nenhum dos dois consegue enxergar a humanidade do outro. Ambos estão perdidos nesse universo de símbolos, de criminalização e de crime organizado criados por instituições que acabarão promovendo uma ofensiva não apenas contra “El Chapo”, mas também contra Kate del Castillo, que posteriormente foi acusada pelo governo mexicano de ter colaborado com o traficante.
Então, isso é extremamente interessante porque, mais uma vez, mostra que a sociedade inteira é mediada por uma compreensão hegemonizada do narcotráfico e que é muito difícil escapar dessa mediação, apesar de termos muitas ferramentas e muitas evidências para compreender os efeitos violentos da política antidrogas. Continuamos presos à sua câmara de ecos, às suas fantasias.

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BBC — O conceito original de cartel, que era essa confederação de máfias que entra em acordo, também não é o que existe atualmente, na sua opinião?
Zavala — É um conceito que vem do campo da economia e que a DEA adota no fim dos anos 1970, porque esse era o imaginário que circulava, sobretudo entre os norte-americanos, quando ouviam a palavra cartel.
Eles imaginavam esses países árabes produtores de petróleo que manipulavam o preço do barril e exerciam uma pressão geopolítica na qual os EUA estavam em desvantagem.
Então, quando você diz “há cartéis de drogas na América Latina”, imagina pessoas de pele morena, criminosas, colaborando para enviar um produto tóxico, como eram, em determinado momento, a cocaína e a maconha, e agora o fentanil e as drogas sintéticas. Pessoas que operam quase como parte de uma conspiração continental para prejudicar a sociedade norte-americana.
A palavra cartel foi concebida deliberadamente como um método de propaganda para assustar as pessoas, para criar um inimigo perfeito na América Latina.
Mas a palavra cartel não foi criada pelos traficantes. Os últimos a descobrir que estavam em um cartel foram os próprios traficantes.
Mais recentemente, porém, há jovens criminosos que, talvez porque essa mitologia esteja tão presente, também participam dela da mesma forma que eu e você a consumimos.
Então há rapazes que, infelizmente, nessa precariedade da vida criminosa, gostariam de se imaginar como parte de um cartel. E essa é talvez a parte mais dramática e mais triste de tudo isso: que os jovens mais vulneráveis e mais desamparados recorrem a um mito para se sentirem fortalecidos por um momento em suas vidas.
Também é o mito que acaba os destruindo. Em nome de um cartel, jovens pobres e racializados no México foram mortos de forma desproporcional.

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BBC — Os produtos culturais dos anos 1980, 1990 ou anteriores não falavam tanto de cartéis, ou pelo menos não da forma como ocorre hoje com as redes sociais e as plataformas de séries.
Zavala — Parte do que chamamos de narcocultura, às vezes de maneira tão ampla, na verdade, acredito que se refere aos processos culturais que vão se desenvolvendo junto, ou em paralelo, a esses discursos dominantes em torno do narcotráfico.
Então, se voltarmos no tempo e olharmos para os anos 1970 e 1980, surgem os filmes e a música popular, os famosos narcocorridos (gênero musical mexicano), com traficantes bastante precarizados, bastante humildes.
Em um dos famosos narcocorridos, Contrabando y Traición (de Los Tigres del Norte), conta-se que eles levavam “os pneus do carro cheios de erva”, entre outras coisas.
Não eram grandes carregamentos, e eram pequenas histórias que funcionavam mais como uma forma bastante conservadora de alertar a população de que o narcotráfico era uma atividade realmente perigosa e que não valia a pena, porque a pessoa acabaria na prisão ou, pior, morta.
E o interessante é que isso era dito naquela década porque, no discurso oficial do México, o narcotráfico também não aparecia como uma ameaça à segurança nacional.
E porque, nos EUA, só no fim dos anos 1980 começou-se a falar do narcotráfico dessa forma, com o presidente Ronald Reagan.
Embora o presidente Richard Nixon tenha sido quem criou a DEA e iniciado um combate mais firme ao narcotráfico em nível nacional nos EUA, Reagan, no fim dos anos 1980, passou a classificar os traficantes como ameaças à segurança nacional. E é aí que surge o imaginário do narcotraficante todo-poderoso.
Então, alguns anos mais tarde, em 1997, já temos o grande sucesso dos Tigres del Norte, Jefe de Jefes.
Os traficantes já passam a ser imaginados como verdadeiras ameaças à segurança nacional, e ocorre essa mudança radical que vai dos traficantes pobres dos anos 1970, mortos pelo xerife, aos anos 1990, quando se têm traficantes capazes até mesmo de comprar a Presidência do país.
E isso não se deve ao fato de os traficantes terem aumentado seu poder.

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O que se observa é uma mudança no discurso, na maneira de falar sobre eles. E na forma como o poder do narcotráfico passou a ser apresentado pelas instituições oficiais, primeiro nos EUA e depois no México.
E os discursos hegemônicos se estabelecem de maneira tão dominante que as pessoas os reproduzem espontaneamente.
Se você for agora ao México e perguntar a qualquer pessoa o que pensa sobre o narcotráfico, ela dirá que os traficantes são muito poderosos, que controlam o país, que são a mesma coisa que o Estado. Mais do que isso: que o Estado é o narcotráfico. E exatamente a mesma coisa será dita por uma pessoa na Espanha se você lhe fizer a mesma pergunta sobre o México.
O extraordinário é que essa ideia de que o narcotráfico é extremamente poderoso e de que capturou o Estado já foi aceita e internalizada a tal ponto que as pessoas a adotam sem maior necessidade de verificação.
E é por isso que quem escreve roteiros para a televisão, faz música etc. tem essa ideia completamente à flor da pele e a reproduz.

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BBC — O que você acha que está por trás do que chama de narrativa?
Zavala — Há muitas coisas, como os benefícios que a guerra contra o narcotráfico traz como política. E a primeira delas, claro, é que ela funciona como um mecanismo de intervenção.
O governo dos EUA utiliza a política antidrogas e o imaginário criado em torno dela, convencendo a população de que os narcotraficantes são muito poderosos, para mudar governos em seu favor.
Um governo que não se alinha a Washington é um governo que foi penetrado pelo narcotráfico; um governo que se alinha é um governo justo, um governo correto.
Alinhar-se, muitas vezes, significa entregar recursos estratégicos aos EUA, permitir que os EUA intervenham de forma excessiva, sem deixar, em troca, benefícios para o país.
Há a exploração e a espoliação de recursos naturais e, claro, os lucros gerados pela militarização.
Não se trata apenas do contrabando de armas dos EUA para o México, frequentemente mencionado, mas também da transferência de equipamentos, treinamento e armamentos do governo norte-americano para forças armadas, inclusive estaduais e municipais, no México.
E tudo isso envolve gastos e, muitas vezes, representa a transferência de recursos públicos para o setor privado, porque são utilizados diversos tipos de armamentos produzidos por empresas privadas. Mas o que isso também implica é a militarização quase total do país.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


