
Crédito, Lee Durant/BBC
- Author, Orla Guerin
- Role, Correspondente internacional no Equador, BBC News
Published
Tempo de leitura: 10 min
Na cidade de Durán, no Equador, assolada pelas drogas e pelas gangues rivais, o capitão da polícia Jean Carlos Bustamante sabe exatamente o que precisa enfrentar.
Não se trata apenas dos criminosos que matam e, às vezes, esquartejam seus rivais. Existem inimigos dentro da própria polícia.
“Temos muitas, muitas pessoas ruins dentro da nossa unidade, dentro do Estado, dentro da política”, lamenta ele. “Temos muitos, muitos corruptos. Eles recebem pagamento das gangues.”
Bustamante conta que os únicos policiais em quem ele pode confiar são os membros da sua equipe escolhida a dedo, que ficam bem ao lado dele.
Com 34 anos, o capitão é o mais velho dos policiais e trabalha com a experiência adquirida nos seus tempos de oficial das forças especiais.
O sol se põe em Durán e ele lidera sua equipe em um bairro muito pobre. Ali, as janelas ficam trancadas atrás de grades metálicas e os lábios são selados pelo medo.
Aquele é o coração das gangues, controlado por um grupo chamado Los Águilas (“As Águias”, em espanhol).
Pergunto o que acontece se os moradores locais denunciarem as gangues.
“Eles os matam”, responde o capitão. “Por isso, eles nunca dizem nada.”

Crédito, Lee Durant/BBC
Bustamante se dirige a uma casa abandonada. Ele acredita que ali haja armas escondidas, já que os atiradores não guardam suas armas em casa.
Ele e sua equipe se posicionam, cercando a parede, fortemente armados e em formação compacta. Com um aríete, eles derrubam a porta.
Os policiais encontram duas pistolas, uma enferrujada e outra pronta para ser disparada, além de uma metralhadora e munição. O capitão afirma estar feliz com o resultado.
“Primeiro, porque estamos em segurança”, explica ele. “Segundo, porque são duas armas a menos para as gangues.”
Mas a vitória é pequena nesta guerra de desgaste. Bustamante reconhece que as gangues têm “muitas armas e muito mais dinheiro que o Estado”.
Ele conhece muito bem os riscos envolvidos. Já são três amigos próximos perdidos na luta contra as gangues. E ele também perdeu o medo “anos atrás”, ao contrário dos seus pais.
“Minha mãe diz ‘tenha cuidado, talvez você acabe morrendo ali'”, ele conta. “Meu pai me liga todo o tempo e pergunta ‘você está bem, meu filho? Diga-me que você está bem.'”
É possível traçar uma linha, em dólares e em vidas interrompidas, entre os becos de Durán e os pontos de consumo de droga de Londres e outras capitais.
Cerca de 70% da cocaína que chega à Europa e aos Estados Unidos passam pelo Equador, segundo o presidente do país, Daniel Noboa.
Como tudo chegou a este ponto?
A droga chega dos países vizinhos, Colômbia e Peru, os dois maiores produtores do mundo. Gangues domésticas poderosas, aliadas aos cartéis mexicanos e aos grupos da máfia albanesa, ajudam a transportar a cocaína adiante.
Eles se aproveitam dos fracos controles de fronteiras, das forças de segurança sem recursos e do longo litoral do Equador no oceano Pacífico.
Com isso, o que antes era um paraíso pacífico para os turistas na América do Sul, em uma década, passou a ser um campo de batalha.

No ano passado, a taxa de assassinatos era uma das mais altas do mundo, com mais de 9,2 mil mortos, segundo o Ministério do Interior equatoriano. Tudo isso, mesmo com a forte repressão determinada pelo presidente Noboa nos dois últimos anos.
Os críticos afirmam que o tiro saiu pela culatra. Chefões do crime foram presos, causando danos às gangues, mas também fazendo com que elas se multiplicassem.
Muitos no Equador acreditam que o combate às gangues é uma guerra perdida. Mas o capitão Bustamante continua sua luta.
Nós saímos com ele para outra operação. Ele fica deitado aguardando, enquanto observa uma visão aérea dos becos próximos, enviada por um drone.
Bustamante vê três figuras se movendo no canto de um parquinho. São “microtraficantes” pegos em flagrante, segundo ele.
Eles estão no final da cadeia da droga, vendendo localmente em pequenas quantidades, não em quilos.
Em questão de minutos, ele e sua equipe rastrearam os suspeitos até a porta de casa. O aríete entra novamente em operação e os policiais logo chegam à cozinha. Uma senhora de meia-idade protesta e uma jovem irrompe em lágrimas.
A polícia entra em cada quarto com lanternas (não há energia elétrica), abrindo armários e levantando colchões.
No andar de cima, eles encontram um esconderijo atrás da janela. Um jovem suspeito surge e é detido. Dois outros são algemados em outro quarto.
Os três são levados, negando que estivessem vendendo drogas.
Em um local próximo, o capitão encontra pequenas embalagens de papel com a letra “H”, escondidas em um vaso de flores.
Trata-se de uma mistura altamente viciante contendo pequenas quantidades de heroína. Cada pacote é vendido na vizinhança por US$ 1 (cerca de R$ 5,10).
Um dos suspeitos é acusado. Se for condenado, poderá pegar cinco anos de prisão. Os promotores liberam os outros dois.
Os policiais afirmam que isso acontece muito. Eles culpam a corrupção do sistema judiciário e da promotoria.

“Nós prendemos os membros das gangues e eles os colocam em liberdade”, afirma o vice-comandante da polícia de Durán, o coronel Santiago Gavilanez.
“Sabemos porque, quando fazemos batidas, nós os capturamos de novo. Alguns dos que são libertados matam pessoas, deixando crianças órfãs.”
Gavilanez conta que as gangues têm dinheiro para “comprar as leis, juízes e políticos”.
Conseguimos um exemplo do poder de compra das gangues com outro policial, em outro local. Não podemos revelar seu nome, nem onde ele trabalha, por questões de segurança.
Ele contou à BBC ter recebido mensagens de texto duas vezes e ofertas de um alto valor em suborno, “dinheiro suficiente para me aposentar”. Ele recusou.
Uma pessoa (talvez um colega) havia informado à gangue exatamente onde ele trabalhava e o que ele fazia.
“Você nunca sabe quem está observando”, ele conta. Ouvimos esta frase muitas vezes ao longo da semana que passamos em Durán e nas regiões vizinhas.
De volta ao parquinho, chega ao final mais um longo dia de trabalho com colete protetor. Mas o capitão Bustamante afirma que precisa continuar.
“Talvez eu esteja um pouco cansado”, admite ele.
“Mas é o meu trabalho. Acredito que posso vencer esta guerra. Precisamos fazer isso.”
Enquanto conversamos, um dos principais chefes de gangues da região foi identificado em um local próximo.
“Nós sabemos que ele controla os vendedores”, conta o capitão. “Mas não temos pistas, nem provas. Por isso, não podemos prendê-lo.”
Ainda assim, os policiais locais defendem que estão fazendo a diferença.
O índice de assassinatos em Durán caiu pela metade, segundo eles, nos primeiros seis meses do ano. E existem outras indicações de progresso, segundo eles.
As ruas não ficam mais desertas após as 19 horas e não são mais encontrados corpos decapitados ou esquartejados. Isso era comum, segundo Gavilanez.
“Conseguimos conter as gangues”, ele conta. “Chegar ao controle total será um processo a médio prazo.” Em outros locais, os criminosos controlam a polícia.
A BBC conseguiu, por meio de um contato, um encontro com uma gangue local no jardim da casa deles, a cerca de uma hora de carro da cidade. Seu líder, Jonathan (nome fictício), contou que mantém quatro policiais na sua folha de pagamento.
“Sempre que eles saem para uma operação, eles me ligam”, conta Jonathan. “Eles me dizem para esconder coisas e sair daqui. Quando eles chegam, não encontram nada.”
Este sistema de alerta custa para ele cerca de US$ 1,5 mil a US$ 2 mil (cerca de R$ 7,7 mil a R$ 10,2 mil) por mês.

Crédito, Lee Durant/BBC
Colete à prova de balas e chinelo
Jonathan tem 37 anos de idade. Ele é apenas alguns anos mais velho que o capitão Bustamante, mas já conhece bem as linhas inimigas.
Ele conta que entrou para uma gangue aos 18 anos, para levar comida para casa.
Ele e seus homens (e meninos) andam pelas ruas acidentadas, em plena luz do dia, brandindo armas, incluindo uma pistola e uma espingarda semiautomática.
O membro de gangue mais jovem que vimos por ali foi um rapaz magro de 17 anos. Ele vestia um colete à prova de balas e calçava chinelos. Todos eles tinham os rostos cobertos.
Jonathan respondeu às questões da reportagem dentro de um quarto estreito, em uma casa de tijolos ventilada, com diversos auxiliares. A maior parte do espaço era tomada por uma cama.
Ele admitiu que vende drogas e já matou pessoas. Perguntei a quantas vidas ele já pôs fim.
“Bem, até agora, cerca de oito, eu acho. Não me lembro direito”, respondeu ele, com a pistola no colo, apontada na minha direção.
Jonathan afirma que sua gangue não matou pessoas inocentes, mas apenas um grupo criminoso rival que tentava ocupar o lugar deles.
“Eles queriam forçar seu caminho para cá”, ele conta. “Eles vieram matando pessoas e nós reagimos. O principal para nós, agora, é eliminar a outra gangue.”
Enquanto conversávamos, moradores locais se reuniam perto da porta de entrada, incluindo crianças.
Defensores dos direitos humanos do Equador contaram que os meninos podem ser recrutados para as gangues com 12 anos de idade. E, três anos depois, eles podem se tornar matadores de aluguel.

Crédito, Lee Durant/BBC
Jonathan não tem remorsos por colocar armas nas mãos de adolescentes, nem por vender cocaína na vizinhança que ele afirma proteger. Ele defende que o comércio de drogas não pode ser eliminado.
“Acho que é uma questão que nunca irá terminar”, afirma ele. “Se eles nos derrubarem, outra gangue virá e, se eles derrubarem aquela, virá uma terceira.”
Ele espera morrer como viveu: pelas armas.
“A morte se paga com a morte”, explica ele. “Mas, se vierem me matar, não vou facilitar para eles.”
Duas noites depois, de volta a Durán, pudemos observar como as gangues ajustam suas contas. O corpo de um homem era visível à luz das lanternas da polícia, deitado onde ele caiu, ao lado de uma motocicleta.
Os cartuchos das balas ainda estavam pelo chão. Os vizinhos ficavam olhando, a maioria em silêncio.
Um homem e uma mulher se abraçavam, chorando. Eram parentes do homem morto. A polícia suspeita de um ataque por vingança, de uma gangue contra outra.
Equipes forenses colocaram o corpo em uma maca e, dali, na parte de trás de uma van refrigerada. Outro corpo já estava dentro do veículo. Aquela era apenas mais uma morte violenta.

Crédito, Lee Durant/BBC
Uma testemunha concordou em conversar com a BBC, desde que não fosse identificado.
“Ele já tinha uma bala nas costas”, ele conta. “Quando ele caiu, acabaram com ele com um tiro na cabeça. Foram seis tiros de dois homens em uma motocicleta.”
“Agora, estamos acostumados com isso porque acontece todo dia”, segundo ele.
“Você pode simplesmente sair de casa e receber uma bala perdida. Você não pode nem mesmo sair ou conversar com amigos ou parentes porque alguém pode atirar em você.”
Ele não espera que a luta do presidente equatoriano contra as gangues traga alguma mudança.
“Os criminosos são como fantasmas”, declarou ele, falando baixo. “Eles surgem onde bem desejam.”
Nossa testemunha desapareceu em seguida, na noite quente do Equador. Afinal, você nunca sabe quem está observando.
Com colaboração de Wietske Burema, Lee Durant e Chris Gibson.
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


