Você já se pegou cutucando aquela pelezinha solta ao redor da unha, mesmo sabendo que isso só vai piorar a situação? Esse impulso, aparentemente inofensivo, tem nome e explicação científica. O hábito de cutucar a pele ao redor das unhas é classificado como um comportamento repetitivo focado no corpo (BFRB, na sigla em inglês).
O que são os comportamentos repetitivos focados no corpo (BFRBs)?
Os BFRBs são uma categoria de comportamentos repetitivos e autodirigidos que causam danos à pele, cabelos ou unhas. Além de cutucar a pele ao redor das unhas, esse grupo inclui roer unhas (onicofagia), arrancar cabelos (tricotilomania) e morder a parte interna da bochecha. Apesar de parecerem hábitos comuns, esses comportamentos podem se tornar compulsivos e causar sofrimento significativo.
O ato de cutucar as cutículas, conhecido clinicamente como onicotilomania, envolve a manipulação repetitiva e compulsiva das unhas e da pele ao redor. Pesquisas indicam que esse comportamento afeta uma parcela significativa da população, sendo mais comum em mulheres e com início geralmente na adolescência.

Quais são os três pilares que explicam a compulsão por cutucar a pele?
O impulso de cutucar a pele ao redor das unhas não é um simples tique nervoso. Ele se sustenta em três pilares que envolvem a percepção de imperfeições, a regulação emocional e a busca por estimulação sensorial. Compreender esses pilares ajuda a desmistificar o comportamento e a reconhecer quando ele se torna um problema.
Os três pilares desse fenômeno são:
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Percepção de imperfeição e o impulso de “corrigir”
O cérebro identifica uma pequena irregularidade — uma pele solta, uma cutícula áspera ou uma rebarba — e ativa um impulso de removê-la. O ato de cutucar é uma tentativa de “consertar” o que parece fora do lugar.
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Regulação emocional e alívio da ansiedade
Muitas pessoas recorrem ao cutucar como uma forma de lidar com o estresse, a ansiedade ou o tédio. O comportamento gera uma sensação temporária de alívio ou satisfação, que reforça o ciclo.
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Busca por estimulação sensorial
Para alguns, o ato de cutucar satisfaz uma necessidade tátil ou de movimento, especialmente em momentos de tédio ou concentração. A sensação física do ato pode ser tão recompensadora quanto o resultado.
Quando o hábito de cutucar a pele vira um transtorno?
Cutucar a pele de forma ocasional é um comportamento comum. O problema começa quando o ato se torna compulsivo — ou seja, quando a pessoa se sente impulsionada a fazê-lo mesmo sabendo que está causando danos. O transtorno de escoriação (ou dermatilomania) é caracterizado por lesões cutâneas recorrentes, tentativas frustradas de interromper o comportamento e sofrimento clinicamente significativo.
Os principais sinais de que o hábito pode estar se tornando um transtorno são:
- Lesões visíveis: cortes, sangramentos, cicatrizes ou inflamações recorrentes
- Perda de controle: tentativas repetidas de parar sem sucesso
- Tempo significativo: gastar horas por dia cutucando a pele
- Impacto na vida social: evitar situações que exponham as lesões, como usar roupas curtas ou ir à piscina
- Vergonha e culpa: sentimentos intensos relacionados ao comportamento
Por que o ciclo de cutucar a pele é tão difícil de quebrar?
O grande problema do ato de cutucar a pele ao redor das unhas é que ele se torna um ciclo vicioso. A pessoa sente uma irregularidade, cutuca para removê-la, mas acaba criando uma ferida ou uma crosta. A crosta, por sua vez, é percebida como uma nova imperfeição, e o ciclo recomeça.
Esse ciclo é alimentado por dois mecanismos principais. O primeiro é o alívio temporário: o ato de cutucar pode gerar uma sensação de gratificação ou alívio da tensão, o que reforça o comportamento. O segundo é a automaticidade: muitas pessoas cutucam sem sequer perceber, especialmente em momentos de estresse, tédio ou concentração.
O transtorno frequentemente ocorre em conjunto com outras condições, como ansiedade, depressão e transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Estudos indicam que há uma predisposição genética para o comportamento, que tende a ser mais comum em famílias com histórico de TOC.

Como lidar com a compulsão por cutucar a pele?
O tratamento do transtorno de escoriação envolve uma abordagem combinada, que pode incluir psicoterapia, medicação e mudanças no estilo de vida. A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e a Terapia de Reversão de Hábitos (TRH) são as abordagens mais eficazes.
Algumas estratégias práticas para interromper o ciclo incluem:
- Criar barreiras físicas: usar curativos ou luvas para dificultar o acesso à pele
- Substituir o estímulo: usar objetos de fidget, bolas de estresse ou massinha para manter as mãos ocupadas
- Manter a pele hidratada: usar cremes para reduzir a aspereza que desencadeia o impulso
- Praticar a atenção plena: reconhecer o impulso antes de agir e fazer uma pausa
Em casos mais graves, o tratamento com medicações pode ser útil. O mais importante é buscar ajuda profissional sem vergonha. Muitas pessoas com essa condição sentem vergonha, culpa e não entendem por que fazem isso, mas o transtorno tem tratamento e a compreensão do mecanismo é o primeiro passo para a mudança.
A tabela abaixo resume as principais diferenças entre o hábito ocasional e o transtorno:
| Característica | Hábito ocasional | Transtorno de escoriação |
|---|---|---|
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Frequência Com que frequência ocorre | Esporádica, em momentos específicos | Recorrente e crônica, muitas vezes diária |
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Consciência A pessoa percebe o que faz | Totalmente consciente e controlável | Pode ser automático ou precedido por tensão intensa |
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Consequências Impacto na pele e na vida | Lesões leves e temporárias | Lesões significativas, cicatrizes, infecções e prejuízo social |
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Controle Capacidade de parar | Fácil de interromper | Dificuldade extrema ou incapacidade de parar |
O que a compulsão por cutucar a pele revela sobre a nossa relação com o corpo?
O ato de cutucar a pele ao redor das unhas até arrancá-la é um microcosmo da nossa relação com o corpo: uma tentativa de controlar imperfeições que, paradoxalmente, acaba criando mais danos. Ele revela como a ansiedade e o estresse podem se manifestar em comportamentos físicos repetitivos, e como a linha entre um hábito inofensivo e uma compulsão debilitante é muitas vezes tênue.
Reconhecer que esse impulso tem raízes profundas — na percepção de imperfeições, na regulação emocional e na busca por estímulo — é o primeiro passo para lidar com ele de forma mais saudável. Dizer a alguém com transtorno de escoriação que “é só parar” é como dizer a uma pessoa com depressão que “é só se animar”. O caminho para a mudança passa pela compreensão, pela paciência e, quando necessário, pela ajuda profissional.
Fonte. MG.Superesportes


