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8 de julho de 2026

Futebol merece mais compromisso dentro de campo – 08/07/2026 – Tom Farias

Futebol merece mais compromisso dentro de campo – 08/07/2026 – Tom Farias

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Após a derrota do Brasil no domingo (5), um amigo provocador veio me dizer que a seleção brasileira de 2026 precisava jogar bola como a seleção da Copa do Mundo de 1970. Eu discordei na hora, mas sem entrar muito na polêmica.

Disse para ele, trocando em miúdos, que jogo é jogo, Copa é Copa, independentemente do período em que acontece. Além do mais, é inegável o talento dos jogadores atuais, cujos méritos futebolísticos fazem parte do lugar onde estão —e dos altos salários que ganham. Mas é inquestionável o peso da camisa canarinho.

O futebol se tornou um dos mais importantes ativos financeiros no mundo, transformando a vida de muitas pessoas comuns, sem distinção pelo seu grau de escolaridade ou cor da pele, mas pelo que fazem, em magia, com os pés.

A derrota para a Noruega não diz respeito às quatro linhas em que nossa seleção estava circunscrita. Diz sobre nós, enquanto nação. Diz sobre a forma romântica que, 56 anos depois de sermos campeões no México, ainda hoje queremos reproduzir gestual, jogadas, dribles esportivos —de um tempo em que, naquele mundo analógico, se jogava para a nação, não para redes sociais.

Este é o primeiro ponto. Mas não só. Existem outros. Os jogadores de hoje, os que foram parados no mata-mata pelos vikings do futebol, não vivem a realidade brasileira; a maioria sequer mora no Brasil. Estão tão distantes de nós, os mortais terráqueos, quanto estão cada vez mais longe de voltarem a ser chamados de “melhores do mundo”.

Eliminados da competição, o destino deles é fora do país. A palavra “Brasil”, em distorcida acepção, lembra-lhes apenas o registro na certidão de nascimento —nada mais.

Era de se esperar, depois da feia derrota, como nos velhos tempos, que a delegação fosse recebida no aeroporto brasileiro, para se reconciliar com a torcida ou tomar puxão de orelha pelo mau jogo. Ao contrário: os atletas tomaram o rumo de seus países adotivos.

O futebol brasileiro é atestado da nossa nacionalidade, a marca que nos empresta o símbolo de “pátria de chuteiras”, para lembrar Nelson Rodrigues, este sim, o craque das crônicas. Falando nele, vale a pena reler o que escreveu na Manchete Esportiva de 1958, e, desta forma, percebe-se a que ponto chega nosso complexo.

“Eu vos digo: o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender… Uma vez que ele se convença disso, ponham-no para correr em campo e ele precisará de dez para segurar, como o chinês da anedota. Insisto: para o escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a questão.”

Jogo não faz parte de uma lógica perfeita, Nelson sabia disso. A Argentina, por exemplo, que conquistou o título mundial em 2022 —e se aproxima a conquistar outro—, perdeu fôlego para Cabo Verde, seleção estreante. Messi não “comeu” a bola como se pensava, e a única estrela que brilhou em campo foi a do goleiro Vozinha, um veterano da vida.

A camisa brasileira tem reclamado nova estrelinha há 24 anos. Essa turma que foi à Copa precisa saber que vencer não se trata de uma questão, mas de dever cívico. Nelson Rodrigues já dizia há tempos: o “ser humano é capaz de tudo, até de uma boa ação”. É hora de o elenco canarinho começar a pensar nisso.


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Fonte.:Folha de S.Paulo

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