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Por mais de seis décadas, Glória Menezes emprestou o rosto e a voz a algumas das personagens mais lembradas da dramaturgia brasileira.
Considerada uma das “primeiras-damas” da TV, a atriz morreu nesta terça-feira (18/8), aos 91 anos, no Rio de Janeiro, por causas naturais, segundo sua assessoria de imprensa.
As duas chegaram a contracenar em Irmãos Coragem, novela de 1970: Glória interpretava Lara, Diana e Márcia, enquanto Laura fazia Sinhana Coragem.
Nilcedes Soares de Magalhães nasceu no Rio Grande do Sul, mas foi em São Paulo que encontrou o caminho para se tornar Glória Menezes.
Apaixonada por teatro, ingressou na Escola de Artes Dramáticas da Universidade de São Paulo (USP), e foi no ali que deu os primeiros passos profissionais, em 1959. No mesmo ano, estreou na televisão na novela Um Lugar ao Sol, da TV Tupi.
A experiência nos palcos seria fundamental para a atriz ao longo de sua carreira.
“O teatro me ensinou o que preciso para fazer televisão e cinema. Ele dá o conhecimento necessário para interpretar qualquer personagem diante das câmeras”, disse Glória ao site Memória Globo.
Sua trajetória profissional se confunde, em parte, com a do ator Tarcísio Meira, com quem dividiu a vida e os palcos e estúdios por mais de 50 anos. Os dois se conheceram em 1960, nos bastidores da peça Feiticeiras de Salém.
Dois anos depois, se casaram e formaram um dos casais mais conhecidos da história da televisão brasileira. Em 1964, nasceu o filho único do casal, Tarcísio Filho, que também seguiu carreira como ator.
Ao longo de sua carreira, Glória interpretou dezenas de personagens no teatro, no cinema e na televisão.
Entre seus papeis mais recentes estão personagens nas novelas Páginas da Vida (2006), A Favorita (2008), e Totalmente Demais (2015) — este sendo seu último trabalho na TV.
Relembre alguns dos personagens mais marcantes de Glória Menezes.

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Rosa — O Pagador de Promessas (1962)
Intepretando Rosa, a inocente e fiel esposa do protagonista Zé do Burro, Glória Menezes teve uma estreia e tanto no cinema.
O Pagador de Promessas, adaptação de uma peça escrita por Dias Gomes nos anos 1950, ganhou em 1962 a prestigiosa Palma de Ouro do Festival de Cannes e foi o primeiro filme brasileiro indicado ao Oscar, em 1963.
A versão cinematográfica, com filmagens em Salvador, foi dirigida por Anselmo Duarte. Ele descobriu a atriz assistindo à sua atuação na peça As Bruxas de Salém.
Glória interpretaria a prostituta Marli e a atriz Maria Helena Dias, Rosa. Entretanto, esta adoeceu, e Glória acabou assumindo o papel da esposa de Zé do Burro — interpretado por Leonardo Vilar.
Por sua atuação no filme, Glória Menezes recebeu o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cinema de Curitiba de 1962.
Na trama, Zé do Burro — acompanhado por Rosa — leva uma cruz de madeira do sertão até a cidade para pagar uma promessa feita a Iansã. Entretanto, ao chegar à Igreja de Santa Bárbara, enfrenta a oposição de um padre para cumprir a promessa feita à orixá.
Emily — 2-5499 Ocupado (1963)
Glória Menezes participou da obra que é considerada a primeira novela diária da TV brasileira: 2-5499 Ocupado.
Na trama da TV Excelsior, Glória interpretou Emily, uma jovem presidiária que, por ter um bom comportamento, trabalha como telefonista na penitenciária. Durante o trabalho, acaba se apaixonando pela voz de Larry, um advogado interpretado por Tarcísio Meira, depois de uma ligação feita por engano.
Foi a primeira vez que Glória e Tarcísio formaram um casal de protagonistas na televisão. Eles já eram casados na época.
A novela teve apenas 42 capítulos e começou sendo exibida três vezes por semana, mas passou pouco depois para o formato diário.
Lara, Diana e Márcia — Irmãos Coragem (1970)
Talvez o papel mais emblemático da carreira de Glória tenha sido em Irmãos Coragem. Na novela, exibida em 1970 pela Globo, ela interpretou três facetas da mesma personagem: Lara, Diana e Márcia.
A personagem exigia uma mudança constante de registro: enquanto Lara era mais delicada e romântica, Diana e Márcia apresentavam comportamentos e personalidades diferentes.
A novela, escrita por Janete Clair, foi um dos maiores sucessos da televisão brasileira e ajudou a consolidar Glória como uma das principais estrelas da dramaturgia nacional.
O papel também marcou uma das muitas parcerias de Glória com Tarcísio Meira, que interpretava João Coragem.
Laurinha Figueroa — Rainha da Sucata (1990)

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Em Rainha da Sucata, Glória Menezes viveu Laurinha Figueroa, sua primeira grande vilã e um dos papéis mais lembrados da dramaturgia brasileira.
Laurinha Figueroa era uma socialite elegante e falida de uma família tradicional da elite paulista. Na trama, ela fazia oposição a Maria do Carmo (Regina Duarte), mulher que havia enriquecido com um ferro-velho e representava a ascensão dos novos-ricos.
Manipuladora e sem escrúpulos, Laurinha também era apaixonada pelo enteado Edu (Tony Ramos). O papel marcou uma mudança na carreira de Glória, que até então era mais associada a heroínas e personagens dramáticas.
A morte da personagem na novela também ficou marcada na história. Laurinha comete suicídio em uma tentativa de incriminar Maria do Carmo, e a cena teve tanta repercussão que chegou à primeira página de O Globo.
Vivian Berling – Jornada de um poema (2000)
De volta aos palcos, Glória Menezes se entregou ao papel de Vivian Berling, uma professora universitária que descobre um câncer terminal.
O texto brasileiro foi uma adaptação de Wit, peça da americana Margaret Edson que venceu o prêmio Pulitzer de teatro em 1999. Por aqui, a obra foi dirigida por Diogo Vilela, em sua estreia como diretor.
Em entrevista ao jornal O Globo em 2000, a atriz afirmou que protagonizar essa peça era uma “maratona física e emocional”.
“Desde agosto, eu durmo, como e respiro Vivian Berling. Na faixa de idade em que estou, encontrar um personagem como este é um presente, porque ele é diferente de tudo o que eu já vi e vivi”, disse a artista.
“O texto é um alerta a este mundo moderno, em que estamos tendo cada vez menos contato com as pessoas. É preciso estar diante do imponderável, como acontece com Vivian. É um câncer, mas poderia ser qualquer outra coisa que fizesse esta mulher refletir sobre a vida.”
Na entrevista ao jornal, a atriz também expressou reflexões sobre a morte.
“A morte é algo em que a gente procura não pensar. É algo certo, mas que preferimos ignorar. Mas se a peça fala da morte, ela também fala da vida, de como é preciso viver bem antes de morrer.”
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


