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- Author, BBC News Hindi e Isabel Shaw
- Role, Serviço Mundial da BBC
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Os crescentes impactos econômicos do conflito no Irã levaram a Índia a pedir aos seus cidadãos que parem de comprar ouro por um ano.
“Pelo bem do país, precisaremos decidir que, durante um ano, não compraremos joias de ouro, mesmo se houver eventos em casa”, declarou em 10 de maio o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi.
“O patriotismo não se refere apenas à disposição de sacrificar a vida na fronteira”, destacou ele.
“Nos tempos atuais, é questão de viver com responsabilidade e cumprir nossos deveres com a nação, no nosso dia a dia.”
Três dias depois, a Índia aumentou as tarifas de importação de ouro, de 6% para 15%. É uma medida dura, já que a Índia é o segundo maior mercado de ouro do mundo, tanto em joalheria quanto para investimento.
No último ano fiscal, encerrado no dia 31 de março, as importações de ouro do país somaram US$ 72 bilhões (cerca de R$ 359 bilhões).
O ouro também representa importante papel cultural na Índia. O metal costuma servir de presente de casamento e é transmitido como herança.
Modi afirmou que a compra de ouro vinha consumindo grandes volumes de divisas, em um momento em que a Índia enfrenta o aumento dos preços do petróleo. O país importa mais de 85% do seu consumo nacional.
A alta dos preços da energia vem pressionando governos de todo o mundo a implementar medidas de economia.
Muitos países se concentraram principalmente na economia energética, mas a Índia parece ser a única nação a pedir a seus cidadãos que reduzam os gastos com o ouro.
O metal passou a ser uma grande preocupação econômica no país, já que as importações de ouro e petróleo são pagas principalmente em dólares americanos.
A maior demanda por dólares pode enfraquecer a rúpia indiana, que já se desvalorizou em cerca de 5% frente ao dólar este ano. E esta desvalorização poderá gerar pressões inflacionárias.
“Para o setor de joalheria, a situação atual é pior que a época da covid 19”, afirma o joalheiro Sanjeev Agarwal, de Nova Déli.
Outro joalheiro da capital indiana, Abhishek Agarwal, comenta que as empresas receiam enfrentar dificuldades para sobreviver, se as pessoas deixarem de comprar ouro.

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Importações não essenciais
Mais de 90% do ouro vendido na Índia é importado, segundo a professora Sundaravalli Narayanaswami, diretora do Centro de Políticas do Ouro do Instituto Indiano de Gestão de Ahmedabad, no oeste do país.
“Todos os anos, são importadas 600 a 700 toneladas de ouro e as exportações são muito poucas”, explica a professora. “Por isso, o ouro se acumulou nas famílias.”
É costume dizer que as mulheres indianas possuem cerca de 11% do ouro mundial. Mas é difícil verificar esta cifra e as estimativas também variam.
Na Índia, como em todo o mundo, muitas pessoas consideram o ouro um investimento seguro em épocas de incertezas. Por isso, a demanda pode permanecer alta, mesmo durante as crises econômicas.
Os preços do ouro subiram consideravelmente nos últimos anos, superando pela primeira vez os US$ 5 mil (cerca de R$ 24,9 mil) por onça, em janeiro.
O metal representa cerca de 9% do total de importações da Índia. Mas, diferentemente do petróleo, ele não é considerado essencial, por ser comprado principalmente na forma de joias ou como investimento, não para a produção industrial.
No passado, a Índia já tentou desencorajar o excesso de importações de ouro em tempos de dificuldades econômicas, aumentando as tarifas de importação e promovendo alternativas de investimento que não impliquem a posse do metal em forma física.

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Qual será o impacto?
Além de se abster de comprar ouro, Modi também pediu à população usar o transporte público, compartilhar carros, optar pelo trabalho remoto e limitar as viagens não essenciais ao exterior, para reduzir o consumo de combustível.
O primeiro-ministro indiano convocou as famílias a reduzir o uso de óleo de cozinha e pediu aos agricultores que diminuam o consumo de fertilizantes.
Outros governos de várias partes do mundo implementaram medidas similares para fazer frente ao aumento dos preços dos combustíveis.
O Sri Lanka, por exemplo, estabeleceu um sistema de cotas de combustível para veículos e pediu às instituições governamentais que diminuam o consumo de energia. Já a Tailândia pediu à população reduzir o uso do ar-condicionado.
O Egito já havia ordenado o fechamento antecipado de lojas e restaurantes e Moçambique aconselhou seus cidadãos a optar pelo trabalho remoto.
Já o apelo de Modi à população para que deixe de comprar ouro é “bastante incomum”, segundo Hamad Hussain, da empresa de pesquisas Capital Economics.
“Mas, no caso da Índia, isso se explica porque o país importa grandes volumes de ouro, que representam uma parte importante das suas importações. Por isso, de certa forma, faz sentido.”

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Um ano inteiro?
Os economistas estão divididos em relação aos impactos de uma possível redução da demanda indiana sobre o preço mundial do ouro.
A Índia é o país mais populoso do mundo e um grande consumidor do metal. Por isso, a queda da demanda “pressionaria os preços mundiais do ouro… deslocando a balança devido ao excesso de oferta”, explica Hussain.
Mas Sebastien Tillett, da consultoria Oxford Economics, opina que o impacto seria “marginal”, já que os preços atualmente sofrem mais influência da demanda dos investidores e das incertezas geopolíticas.
Ele também duvida que a convocação de Modi aos indianos venha a abalar as compras de ouro no país.
“Os apelos públicos podem trazer algum efeito, mas o mais provável é que eles posterguem ou alterem as compras, sem eliminá-las”, segundo ele.
Tillett destaca que o ouro continua “profundamente arraigado na cultura indiana e na economia das famílias”.
“O impacto a curto prazo também poderá ser atenuado pela sazonalidade. A demanda de ouro costuma ser menor fora das principais temporadas de compras para casamentos e festivais”, prossegue ele.
“Por isso, é provável que parte da desaceleração ocorresse da mesma forma.”
Em 2013, autoridades governamentais e profissionais do setor relacionaram o aumento das tarifas de importação de ouro ocorrido naquela época ao crescimento do contrabando e do comércio ilegal.
Analistas descrevem o apelo de Modi como o conjunto “mais drástico” de medidas anunciado até hoje, em resposta ao aumento dos preços da energia.
O líder da oposição na Índia, Rahul Gandhi, afirmou que o governo estaria “transferindo a responsabilidade para o povo”.
Membros do setor de joalheria do país solicitaram uma reunião direta com o governo, para encontrar uma solução.
“Se fossem apenas dois meses, talvez pudéssemos gerenciar, mas um ano inteiro é demais”, afirma outra joalheira, Shweta Gupta. “Como eles acham que vamos pagar nossos funcionários?”
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


