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25 de agosto de 2026

Morre Dolly Parton, a lenda da música country que cantava com o coração

Morre Dolly Parton, a lenda da música country que cantava com o coração

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Dolly ergue um troféu. Ela veste uma jaqueta brilhante e cintilante, semelhante a uma jaqueta de montaria, com uma calça de montaria (jodhpurs) de cor creme.

Crédito, Getty Images/Ethan Miller

Legenda da foto, Dolly Parton ganhou vários prêmios pelo filme Coat of Many Colors, inspirado em sua canção de mesmo nome.

    • Author, Tiffany Wertheimer
  • Published

  • Tempo de leitura: 10 min

Dolly Parton, cantora de música country que cresceu nas montanhas Great Smoky do Tennessee, será lembrada por suas canções que contavam belas histórias com uma sinceridade marcante, como Coat of Many Colors, Jolene e I Will Always Love You.

A estrela da música morreu nesta terça-feira (25/8), aos 80 anos, informou comunicado divulgado pela família. Mais detalhes não foram divulgados.

Ao longo de uma carreira de sete décadas, Parton conquistou dez prêmios Grammy, vendeu mais de 100 milhões de discos em todo o mundo e escreveu mais de 3 mil músicas.

Parton levava a composição a sério e se considerava, antes de tudo, uma compositora. “É a minha maneira de me expressar”, disse ela. “É a minha terapia.”

Ela também era uma empresária astuta, que não tinha medo de tomar decisões difíceis. Com seu raciocínio rápido e seu charme sulista, assumiu o controle da própria carreira no mundo do entretenimento, que se estendeu por mais de 60 anos.

Uma foto em preto e branco de Dolly quando criança. Ela está sentada a uma escrivaninha, sorrindo, com os cabelos bem curtos e cacheados. Veste uma camisa sóbria de listras pretas e brancas, de mangas curtas e abotoada até o pescoço

Crédito, Getty Images/Michael Ochs Archives

Legenda da foto, Dolly Parton aos 9 anos de idade

Dolly Rebecca Parton nasceu em 1946, a quarta de 12 filhos, em uma família de agricultores pobres que vivia em uma cabana de apenas um cômodo no Tennessee.

Seu pai, Robert Lee Parton, era produtor de tabaco e pagou a um missionário com um saco de fubá para fazer o parto de Dolly.

A música já fazia parte da família. Sua mãe, Avie Lee, cantava músicas folk o tempo todo, enquanto uma tia tocava violão e compunha.

Em algumas de suas primeiras apresentações, Dolly era acompanhada ao violão pelo tio Bill Owens, que teve papel importante no início de sua carreira.

Aos seis anos, começou a cantar na igreja local, onde seu avô era pastor. Na adolescência, já se apresentava em uma emissora de televisão de sua região.

Em 1959, aos 13 anos, Dolly se apresentou com o tio Bill no Grand Ole Opry, em Nashville — programa transmitido ao vivo e considerado o maior palco da música country.

Ela foi apresentada por Johnny Cash e recebeu três pedidos de bis.

Uma foto em preto e branco de Dolly em um retrato de rosto, sorrindo, com uma jaqueta apoiada sobre o ombro. Seus cabelos têm quase o mesmo comprimento do rosto e estão penteados para trás, altos e volumosos, com um cacho caindo para o lado esquerdo.

Crédito, Getty Images/Michael Ochs Archives

Legenda da foto, Dolly Parton, aos 19 anos, em Nashville

A ‘vadia da cidade’

Durante a adolescência, Parton passou a se inspirar em uma mulher da região conhecida como a “vadia da cidade”.

A mulher usava esmalte vermelho-vivo, blusas decotadas e saltos altos — e a jovem Dolly a considerava linda.

Quando as pessoas diziam: “Ela não passa de uma vadia”, Parton respondia: “Bom, é isso que eu vou ser quando crescer”.

Parton cantava: “Sou apenas uma Barbie caipira/ maquiagem demais, cabelo demais“, mas sua imagem era, ao mesmo tempo, uma espécie de armadura e um disfarce inteligente que a ajudou a chamar atenção no mundo do entretenimento.

Ela se antecipava às piadas fazendo-as primeiro e tinha uma resposta rápida e simples para quem sugerisse que deveria maneirar: “Vá para o inferno.”

Uma foto de Dolly dos ombros para cima. Seus cabelos loiros estão penteados em grandes ondas e caem sobre os ombros. Ela usa um vestido preto e prateado com decote em V, coberto de pedrarias, com detalhes em vermelho. Brincos longos e brilhantes completam o visual.

Crédito, Getty Images/CBS photo Archive

Legenda da foto, Parton dizia que se sentia melhor no palco usando cores vibrantes e roupas brilhantes

Depois de concluir o ensino médio, em 1964, Dolly se mudou para Nashville para iniciar sua carreira como cantora. No primeiro dia na cidade, conheceu seu futuro marido, Carl Dean.

Os dois se casaram dois anos depois e permaneceram juntos até a morte dele, em 2025.

Em Nashville, o talento de Dolly chamou a atenção do cantor de música country Porter Wagoner, que a contratou para se apresentar em seu programa de televisão.

Nos sete anos seguintes, os dois se tornaram uma das duplas mais populares da música country, lançando tantos duetos que muitos fãs acreditavam que eles formavam um casal.

Mas a relação entre os dois era complicada. À medida que a carreira solo de Dolly começava a ganhar força, também aumentavam as tensões nos bastidores.

Em seu livro Star of the Show: My Life on Stage, Parton afirmou que Wagoner via o sucesso que ela conquistava fora de seu programa como uma “ameaça”.

Wagoner está sentado em um banco, usando um terno com desenhos de cactos e plantas, nesta fotografia em preto e branco. Ele posa com seu violão. Dolly está atrás dele, apoiada em seu ombro. Seus cabelos são curtos, mas continuam penteados para cima.

Crédito, Getty Images/Michael Ochs Archives

Legenda da foto, Dolly Parton com Porter Wagoner em uma apresentação de TV em 1967

Durante uma viagem de ônibus com Wagoner para uma turnê, em 1969, Parton escreveu Coat of Many Colors, uma canção profundamente emotiva sobre sua infância pobre, mas repleta de amor.

Ela rabiscou a letra no verso de um recibo de lavanderia. Anos depois, a revista Rolling Stone classificou a música como a segunda melhor de toda a carreira de Parton.

Mais tarde, Parton deu o nome Coat of Many Colors a um de seus livros infantis, além de ser o título de um filme para televisão de 2015 baseado em sua vida.

“É uma música que sempre esteve ao meu lado… ela criou para mim uma vida de muitas cores”, disse ela.

‘Uma triste canção country’

Apesar de não saber ler partituras, Parton tocava vários instrumentos, incluindo banjo, harpa, piano e saxofone.

Seu primeiro sucesso a chegar ao primeiro lugar das paradas foi Joshua, em 1971, música que também lhe rendeu sua primeira indicação ao Grammy.

Em 1974, finalmente deixou o The Porter Wagoner Show para se dedicar à carreira solo. Para se despedir de Wagoner, escreveu I Will Always Love You, uma música que muitos interpretam como a história da separação de dois amantes.

“Essa é a música mais bonita que já ouvi”, teria dito Wagoner, emocionado, quando a ouviu pela primeira vez, segundo o site de Parton.

Naquele mesmo ano, Elvis Presley se preparava para gravar uma versão da música, mas Parton desistiu do acordo quando o empresário do cantor exigiu metade dos direitos autorais da composição.

Ela passou a noite chorando por causa da difícil decisão. Mais tarde, Priscilla Presley contou a Parton que Elvis cantou a música para ela durante o divórcio dos dois.

Em 1992, Whitney Houston transformou a canção em uma balada que se tornou um clássico.

Parton contou que estava dirigindo quando ouviu a versão de Houston pela primeira vez e precisou encostar o carro: “Quando ouvi a voz dela passar do canto à capela para a parte acompanhada pelos instrumentos, sinceramente achei que fosse ter um ataque cardíaco. Foi uma das coisas mais emocionantes que já vivi.”

A versão de Houston de sua “triste canção country” foi, segundo Parton, um dos momentos de que ela mais se orgulhou na vida.

Parton regravou a música para o filme The Best Little Whorehouse in Texas, obra de 1982 em que atuou e pelo qual foi indicada ao Globo de Ouro de melhor atriz.

‘Aquela outra mulher’

Outra de suas músicas mais famosas foi lançada em 1974: Jolene.

Expondo sua vulnerabilidade e angústia, a música fala de uma bancária de cabelos ruivos e flamejantes que flertava com seu marido.

“Jolene, estou implorando, por favor, não tire meu homem de mim”, suplica.

Parton contou que seu marido, conhecido por ser extremamente reservado, ficou um pouco constrangido com a música. Mas não havia nada sério por trás da história — era apenas uma piada recorrente entre os dois.

“Eu dizia: ‘Caramba, você está passando muito tempo no banco. Não acredito que temos tanto dinheiro assim.'”, contou.

A música foi regravada por diversos artistas, incluindo The White Stripes, Miley Cyrus e Beyoncé, que alterou a letra para um tom mais ameaçador: “Estou avisando: não venha atrás do meu homem.”

Nos anos seguintes, o sucesso de Dolly Parton só cresceu, com mais hits, indicações e prêmios. Ela ganhou seu primeiro Grammy em 1978, por Here You Come Again.

Uma imagem de perfil de Parton cantando no palco, com uma enorme multidão acompanhando sua apresentação.

Crédito, Richard McCaffrey/Michael Ochs Archive

Legenda da foto, Parton se apresentando na Califórnia, em 1978.

Foi a música-tema que Dolly Parton escreveu para o filme Como Eliminar seu Chefe, em 1980, que a lançou definitivamente ao estrelato.

A atriz Jane Fonda, que produziu e estrelou o filme sobre mulheres vítimas de discriminação no ambiente de trabalho, fez um acordo com Parton: ela atuaria no longa se também pudesse escrever a música-tema.

Ao perceber que o som de suas unhas batendo umas nas outras lembrava o de uma máquina de escrever, Parton compôs Das 9 às 5 enquanto esperava no set de filmagem.

Fonda disse que percebeu imediatamente que não se tratava apenas de uma música-tema, mas de um verdadeiro hino.

O filme foi um grande sucesso de bilheteria, e a música recebeu vários prêmios, incluindo um Globo de Ouro.

Três mulheres aparecem de braços dados, caminhando pelo escritório, com mesas ao fundo nesta fotografia em preto e branco. As mulheres que trabalham como datilógrafas ao fundo sorriem e olham para as três.

Crédito, Getty Images/Michael Ochs Archives

Legenda da foto, Jane Fonda, Lily Tomlin e Dolly Parton em uma cena de Como Eliminar seu Chefe

‘Eu pareço uma mulher, mas penso como um homem’

Parton era uma empresária bem-sucedida e perspicaz e, em 2022, foi incluída pela Forbes na lista das mulheres mais ricas dos Estados Unidos que construíram suas próprias fortunas.

“Eu pareço uma mulher, mas penso como um homem. Já fiz negócios com homens que achavam que eu era tão boba quanto aparentava. Quando percebiam que não era, eu já estava com o dinheiro e tinha ido embora”, disse ela certa vez.

Sua aparência — os figurinos, as perucas, as unhas longas pintadas e os saltos altos — era apenas uma fachada para encarnar o estereótipo da “loira burra”. Mas ela sempre dizia que sabia que não era burra — “e também sei que não sou loira”.

Parton tinha sua própria gravadora, a Dolly Records, e era coproprietária da The Dollywood Company, responsável pela administração de espaços de entretenimento, um parque temático, um parque aquático e um resort.

Em 1986, ela inaugurou o parque de diversões Dollywood, no sopé das montanhas Great Smoky, que tanto amava.

Além de montanhas-russas, o parque abriga o maior santuário do mundo dedicado a águias-carecas que não podem ser devolvidas à natureza. O trabalho de reabilitação e reprodução realizado no local recebeu prêmios e, em 2007, a águia-careca foi retirada da lista de espécies ameaçadas de extinção.

Dolly Parton usa uma jaqueta e uma saia vermelhas, com punhos de estampa de leopardo, enquanto está sentada em uma roda-gigante, sorrindo e falando ao microfone.

Crédito, Ron Galella, Ltd./Ron Galella Collection via Getty Images

Legenda da foto, Parton, fotografada no Dollywood em 1993, disse que queria criar um lugar onde a cultura das montanhas Great Smoky pudesse ser celebrada

Apesar de sua riqueza e sucesso, Parton não perdeu a humildade e apoiava as comunidades onde cresceu.

Inspirada pelo pai, que não sabia ler nem escrever, ela criou o programa Imagination Library, em 1999, que distribuía livros gratuitamente para crianças do Tennessee. Desde então, o projeto se expandiu para Austrália, Reino Unido, Irlanda e Canadá, distribuindo milhões de livros todos os anos.

Sua organização sem fins lucrativos, a Dollywood Foundation, já financiou bolsas de estudo e hospitais, além de fazer doações para vítimas de enchentes e incêndios florestais.

Em 2020, enquanto a pandemia de covid-19 se espalhava pelo mundo, Parton doou US$ 1 milhão ao Vanderbilt University Medical Center. O dinheiro ajudou a financiar o desenvolvimento da vacina da Moderna.

Nos últimos anos, Parton precisou adiar ou cancelar vários shows para se submeter a tratamentos de saúde.

Em maio de 2026, ela adiou uma temporada de shows que faria em Las Vegas para tratar cálculos renais. Na ocasião, disse que levaria algum tempo para se recuperar e estar “pronta para subir ao palco”.

“Não posso ficar tonta carregando banjos, guitarras e coisas do tipo em cima de saltos de 12 centímetros — e vocês sabem que vou estar usando esses saltos”, brincou em uma mensagem em vídeo.

“Sem falar em todas aquelas roupas pesadas, cheias de strass, o cabelão, minha grande… hum, personalidade.”

Dolly Parton no palco, usando um top azul cropped e shorts brancos curtos. Embora pareça que sua barriga e seu decote estão à mostra, na verdade ela veste um tecido cor da pele, coberto de pedrarias.

Crédito, Brandon Sloter/Image Of Sport/Getty Images

Legenda da foto, Parton surpreendeu os fãs ao se apresentar no show do intervalo do jogo da NFL no Dia de Ação de Graças de 2023, aos 77 anos

Ao longo de sua carreira, Parton se expressou com elegância, sempre combinando humor e inteligência. Ela evitava se envolver em política, dizendo que não queria afastar metade de seu público.

Corajosa e talentosa, foi uma pioneira da música country em uma época em que as mulheres não eram levadas a sério na indústria, especialmente quando seguiam carreira solo.

Parton dizia esperar ser lembrada por suas composições e como alguém que levava seu trabalho a sério, mas não a si mesma.

Certa vez, ela deu este conselho: “Nunca se esqueça de suas raízes, de sua casa ou de seu cabelo.”

Foi um conselho ao qual ela permaneceu fiel ao longo de toda a vida.



Fonte.:BBC NEWS BRASIL

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