Infelizmente, uma das melhores dicas que posso oferecer desta minha viagem à Galícia não tem nem nome. Se precisar muito de um endereço, anote aí: feira de sábado na praça central de Allariz, sem número. Mas não se preocupe tanto com os detalhes. Basta andar pela cidade que você vai achar o melhor polvo que já experimentou na sua vida.
Numa elaborada viagem recente a esta região, que é cheia de restaurantes destacados pelo guia Michelin, achar uma comida tão boa assim por acaso seria algo surpreendente. Mas estamos falando da Espanha, e por aqui a gente sabe que vai comer bem.
Não era a minha primeira vez no país, é claro, mas eu estava pisando pela primeira vez na Galícia. E que estreia sensacional foi essa.
Iniciei meu roteiro pelo lugar onde a maioria das pessoas que visita essa comunidade autônoma da Espanha terminam sua peregrinação, Santiago de Compostela. Talvez soe como um anticlímax começar essa viagem por ali, mas espere para ver.
Mal coloquei a mala no quarto de um impressionante convento de 800 anos, hoje o San Francisco Hotel Monumento, e já estava na praça do Obradoiro conversando com brasileiros iluminados pela alegria de terem completado sua peregrinação.
Tinha gente celebrando a segunda peregrinação, a terceira —até a oitava. Em todos os rostos, via-se a luz de uma revelação que só podia imaginar, uma vez que eu mesmo nunca encarei o chamado do Caminho de Santiago.
Mal disfarçando essa lacuna, eu dizia a todos os peregrinos que tenho o sonho de fazer ao menos um dos itinerários. Mas, no fundo, eu sabia que minha missão ali era outra: comer muito bem. E com muita fé, parti de Santiago para cumpri-la.
Já comecei a me deliciar ali na cidade, com os mais incríveis frutos do mar que encontrei no mercado da praça de Abastos, além de um gaspacho que tomei de canudinho na barraca de uma das amas da terra, como as vendedoras de lá são conhecidas.
Aí vieram os Big Gourmand Michelin: Café de Altamira e Horta do Obradoiro. Estupendos, como esperado. Mas quem precisa de um selo de qualidade quando se está na Galícia?
No dia seguinte já estava degustando anchovas numa torrada perfeita e depois uma costilla braseada num certo Faro Pequeno, num farol antigo perto de Baiona —já questionando a injustiça de esse lugar não ser reconhecido pelo famoso guia.
Depois ainda teve os embutidos às margens no Miño, no Sacra Activa; as vieras (e o “vermú”!) da Adega Algueira, na Ribeira Sacra; os queijos da Arais Moniz, em Chantada; a carne impecável no Portovello, Allariz; as criações elaboradas do chef Pablo Gallego em A Coruña. Todos esses lugares altamente indicados e que você acha com apenas um Google.
Mas a barraca com a iguaria daquela feira eu não tenho como te explicar melhor onde é. Não tem lugar certo, nem nome, ou mesmo um arroba para você clicar. Mais fácil sair perguntando pela cidade de Allariz, um achado que vai merecer uma coluna só para si.
Só posso dizer que ali, embaixo de 35º C, comendo aquele polvo nadando em azeite e páprica picante, bebendo uma 1906 (a cerveja que se orgulha de ser a favorita de uma “imensa minoria”), eu senti que tinha realizado meu percurso. Um tanto pagão, é verdade. Mas como diz aquele filme antigo, o céu pode esperar. Ainda mais na sua filial aqui na Galícia.
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Fonte.:Folha de S.Paulo


