Maio de 2026. Volto a São Paulo. Poucos dias na cidade e já me pergunto: estamos mesmo em 2026? Ou continuamos em 2022? Ou em 2018?
A culpa é da maldita política. Em ano de eleição, teremos Lula e Bolsonaro. No caso do segundo, é o filho, eu sei. Mas todos sabemos que é o pai.
Minha sensação é a de estar dentro de “Feitiço do Tempo” —no original, “Groundhog Day”—, uma das grandes comédias do cinema americano contemporâneo.
Para quem não lembra: o personagem de Bill Murray, um jornalista rabugento, é enviado pela emissora de TV para cobrir o Dia da Marmota em Punxsutawney, na Pensilvânia. Se a marmota sai da toca e vê a própria sombra, o inverno dura mais seis semanas. Se o dia estiver nublado e ela não vê a sombra, a primavera chega cedo.
No filme, a marmota vê a sombra —e o inverno cai na vida do personagem: um estranho feitiço que o condena a viver o mesmo dia infinitas vezes.
O Brasil vive esse feitiço. O tempo não avança. Os rostos são os mesmos. Os roteiros também. É um déjà-vu perturbador.
Não é caso único. Nem é caso novo. Mais de cem anos atrás, Robert Michels escreveu o livro clássico sobre a oligarquização dos partidos em democracia.
Para ele, era um fenômeno fatal como o destino. Os partidos políticos são essenciais à democracia: eles organizam vontades dispersas em força coletiva.
O problema é que, com o tempo, quem organiza a democracia aprende também a trancá-la por dentro. Acumula informação, experiência, contatos, prestígio, domínio das regras e controle da máquina.
Essa oligarquização tem consequências. A primeira é a formação de dinastias políticas, às vezes familiares, que se comportam em democracia como se estivéssemos em monarquia. Isso é particularmente comum em regimes presidencialistas —e o Brasil não é exceção.
Basta olhar para os Estados Unidos. Desde os anos 1990, a política presidencial gira em torno de sobrenomes reincidentes: Bush, Clinton, Trump, Biden —Obama foi só um desvio de rota.
Para 2028, os democratas ainda ponderam repetir Kamala Harris —a prova definitiva de que não aprenderam nada e não esqueceram nada. O afunilamento partidário não perdoa.
A segunda consequência é a gerontocracia das democracias contemporâneas. Gente velha. Gente que bloqueia a possibilidade de renovação. Para adaptar a conhecida frase atribuída a Luís 14, o líder moderno olha para a legenda e pensa “o partido sou eu”. Megalomania? Não. Realidade, afirma Michels. A concentração de poder permite esse patrimonialismo partidário.
Somando-se a isso, temos o ambiente midiático de hoje, em que a rapidez e a eficácia são a alma do negócio. Repetir o nome é repetir uma marca conhecida: reduz o custo de apresentar ao eleitor um produto novo. Um desconhecido precisa ser explicado; um herdeiro já vem explicado.
A polarização reforça esse fechamento. Se a democracia está em risco a cada nova eleição —como dizem e repetem—, vencer o pleito passa a ser uma questão existencial. O mau conservadorismo dos partidos é consequência desse dramatismo apocalítico.
Por último, e talvez mais importante, os partidos evoluíram historicamente para se tornar partidos-cartel, cada vez mais sustentados pelo Estado. A sobrevivência de um partido já não depende da ideologia ou da militância, como acontecia com os velhos partidos de massas.
Depende do acesso ao poder e aos seus recursos. Isso cria um novo tipo de disciplina interna, avessa ao pluralismo e à concorrência. Curioso: o “centralismo democrático” de que Lênin falava —discussão antes da decisão, obediência total depois da decisão— tinha, ao menos, o verniz da ilusão. O mantra agora é outro: decisão sem discussão.
No filme “Feitiço do Tempo”, a maldição é quebrada depois que o personagem de Bill Murray passa por um calvário de conhecimento e autoconhecimento. Foi preciso melhorar o caráter para que o tempo voltasse a contar para ele.
Não será diferente nas democracias partidárias do Ocidente. A palavra “elitismo” ganhou má fama na era do ressentimento. Sem motivo: se você espera que seu médico seja um profissional preparado para cuidar do seu pobre corpo, é legítimo exigir que o corpo político seja tratado pelos melhores.
Para isso acontecer, os partidos precisam mudar —e as reformas do sistema partidário estão todas estudadas: limitação de mandatos para cargos de liderança; abertura a candidaturas externas; menor dependência do financiamento estatal; reaproximação com a sociedade civil. Será viável?
Sei lá. Mas, se não for, já me vejo de volta a São Paulo em 2042, acompanhando o duelo histórico entre Lula, aos 96 anos, e Bolsonaro, o pai, em plena juventude política, aos 87.
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Fonte.:Folha de S.Paulo


