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- Author, Sebastian Usher
- Role, Repórter de assuntos globais, BBC News
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Tempo de leitura: 13 min
Os monarcas autocráticos deixaram um eco da sua glória nas ruínas dos megaprojetos que eles dirigiram, no auge do seu poder inquestionável.
Essas pegadas físicas monumentais se encontram nas férteis planícies, encostas montanhosas e desertos do Oriente Médio.
Mas um dos seus homólogos modernos mais importantes talvez acabe deixando apenas uma pegada digital sobre alguns dos seus conceitos mais ambiciosos.
Há uma década, o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman — MBS, como é popularmente conhecido — determinou uma reformulação do seu país que parecia uma obra de ficção científica. O projeto recebeu o nome de Visão 2030.
Estruturas monolíticas extraordinárias deveriam contribuir para o desenvolvimento de novas maravilhas tecnológicas, não só para o reino saudita, mas para todo o mundo.
Estas ideias foram reveladas em um portentoso material de relações públicas evocando paisagens fantásticas, que atraiu grande cobertura da imprensa, em uma mistura de admiração e escárnio.

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Faltando quatro anos para 2030, surge agora uma redução dos gastos, talvez de forma previsível.
Os preços, agora, dispararam devido à guerra, mas as incertezas geradas pelo conflito continuarão limitando a receita e os gastos dos sauditas. Além disso, o fluxo de investimentos estrangeiros nestes projetos visionários de altíssimo custo nunca se materializou segundo as expectativas do país.
Será este um recuo ou uma recalibragem?
Da fantasia para a realidade
Alguns dos projetos mais surpreendentes da Arábia Saudita estão sendo diluídos, paralisados ou até mesmo abandonados.
Vários deles fazem parte do outrora ambicioso megaprojeto Neom, avaliado em US$ 500 bilhões (cerca de R$ 2,5 trilhões).
Aparentemente, o projeto The Line, que pretendia redefinir o conceito de cidade, estendendo-se em linha reta ao longo de cerca de 170 km de terreno virgem no noroeste do país, está se transformando em algo consideravelmente mais prosaico.

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O projeto da estação de esqui de Trojena, nas montanhas do noroeste do país, também sofreu reduções.
Existe neve no local, desmentindo a imagem da Arábia Saudita como um deserto implacável. Mas ela não dura por muito tempo.
O conceito de uma estação de montanha aberta todo o ano levou a região a um universo de artificialidade que não é mais considerado viável.
O projeto incluía um complexo com quilômetros de pistas de esqui e uma cidade completa, com lago artificial, lojas e hotéis de luxo. Seria uma mini-St. Moritz (em referência à cidade suíça) nas montanhas árabes.
Trojena deveria estar pronta para abrigar os Jogos Asiáticos de Inverno de 2029, mas eles foram transferidos de local e serão realizados no Cazaquistão.
A construção de The Cube, uma enorme estrutura de apartamentos e escritórios 20 vezes maior que o Empire State Building, de Nova York (EUA), foi totalmente descartada. Seu custo estimado era de US$ 50 bilhões (cerca de R$ 250 bilhões).
Um dos projetos de maior destaque da ambição saudita de se transformar em uma potência esportiva mundial a partir do zero foi o circuito de golfe LIV. O projeto foi recentemente reavaliado como um fracasso retumbante.
Ele custou, até agora, cerca de US$ 5 bilhões (cerca de R$ 25 bilhões) e não gerou benefícios, nem econômicos, nem em prestígio.

A sensação de observadores veteranos da Arábia Saudita é de já terem visto tudo isso antes. É o caso de Ellen R. Wald, autora do livro Saudi, Inc. (“Arábia Saudita S. A.”, em tradução livre).
“É o mesmo roteiro, o mesmo que ocorreu com The Line”, explica ela. “Você sabe: ‘Vamos construir algo enorme. Ah, espere, agora vamos reduzir significativamente.'”
“E isso se repete diversas vezes. Tem sido assim desde antes de Mohammed bin Salman. Eles fazem grandes anúncios, muito chamativos, e depois não se constrói, ou se constrói em escala muito menor, ou de forma diferente do que era.”
Wald recorda as novas cidades projetadas para construção na década de 2000, sob o reinado do monarca anterior, o rei Abdullah (1924-2015).
O programa “Cidades Econômicas” também tinha como objetivo diversificar a economia saudita, reduzindo sua dependência do petróleo, um elemento fundamental do reino há décadas.
Considera-se, há muito tempo, que depender quase exclusivamente de um recurso natural que não é eterno é um obstáculo para o desenvolvimento de uma economia mais equilibrada e resiliente.
De forma geral, os resultados foram decepcionantes, apesar dos investimentos de bilhões de dólares.
‘Quem disse que era possível?’
Diversas cidades propostas nunca saíram do papel e outras foram transformadas em projetos mais modestos.
A mais ambiciosa era a Cidade Econômica Rei Abdullah, com investimentos de US$ 100 bilhões (cerca de R$ 500 bilhões). Localizada no litoral do mar Vermelho, ao norte de Jedá, ela foi construída, mas seu objetivo de se transformar em um centro de negócios e turismo não se concretizou.
A esperança dos sauditas era atrair grandes investimentos estrangeiros e criar empregos reais, longe do paralisado setor estatal, para a numerosa e cada vez maior população jovem da Arábia Saudita. Mas, em 2016, o índice de desemprego ainda era de cerca de 12%.

Wald acredita que falta fundamentalmente uma visão realista por parte das autoridades responsáveis por estes projetos.
“Onde eles achavam que estava o mercado?”, questiona ela. “Quem disse para eles que isso era possível?”
“Existe uma mentalidade generalizada de submissão. Há pessoas que dizem ao rei o que ele quer ouvir. E isso também se aplica aos consultores, que querem fazer grandes contratos”, explica Wald.
“Por isso, eles dizem o que acreditam que seus clientes sauditas querem ouvir e, depois, os projetos não atendem às expectativas.”
Este padrão remonta a décadas atrás. Muitas vezes, as empresas estrangeiras não querem arriscar seus lucrativos contratos fazendo perguntas.
Mudanças radicais
Alguns acreditam que, quando MBS passou a ser o governante de facto da Arábia Saudita, em 2017, ele herdou um sistema que precisava de urgentes reformas.
O analista econômico Ghanem Nuseibeh acompanhou de perto as mudanças ocorridas no país nos últimos anos. Para ele, MBS herdou “um sistema socioeconômico totalmente defasado em relação ao mundo moderno”, que “se encaminhava para uma total estagnação”.
O projeto Visão 2030 foi projetado para transformar a Arábia Saudita em três campos: econômico, político e social.
“O que foi muito complexo para eles foi a necessidade de implementar estas mudanças de forma coordenada”, segundo Nuseibeh.

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MBS e seus assessores consideravam o controle social exercido pela poderosa e ultraconservadora cúpula islâmica do país como um obstáculo importante para que a Arábia Saudita atingisse seu pleno potencial econômico.
As mudanças políticas ocorridas durante o governo do príncipe herdeiro foram apresentadas como a transferência das rédeas do poder, pela primeira vez, para uma geração mais jovem e dinâmica. Mas isso não significou a abertura de um novo espaço para o debate político.
De fato, Nuseibeh admite que o próprio MBS foi responsável por alguns dos problemas que restringiram o alcance e o ritmo das mudanças, ofuscando o seu governo.
Assim que passou a ser o governante de facto, MBS ordenou a detenção em massa de altos funcionários e empresários sauditas no hotel Ritz-Carlton da capital Riad. O governo saudita apresentou a medida como uma campanha contra a corrupção, mas ela foi considerada por outros como extorsão.
O brutal assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi (1958-2018) no consulado do país em Istambul, na Turquia, deixou uma mancha na reputação do príncipe herdeiro, que pode ter se atenuado, mas permanece inapagável.
Um cidadão saudita que vivenciou diretamente como as autoridades do seu país reprimem os dissidentes é o acadêmico e ativista dos direitos humanos Abdullah al-Ouda, radicado nos Estados Unidos.
Seu pai, Salman al-Ouda, é um proeminente erudito islâmico saudita, preso desde 2017 sob a acusação de “incitar revoltas”, entre outras.
Abdullah acredita que episódios como a purga do Ritz-Carlton foram contraproducentes para o objetivo de financiar o projeto Visão 2030, mesmo que as pessoas detidas naquela prisão de luxo tenham aportado cerca de US$ 100 bilhões (R$ 500 bilhões).

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“A longo prazo, na verdade, ele afastou os investidores”, segundo Abdullah. “E toda a opressão também afetou a forma em que os investidores observam a Arábia Saudita como governo, como país, que não oferece o que os investidores procuram: previsibilidade.”
“Quando não há previsibilidade, alguém pode, um dia, ser simplesmente um investidor e, no dia seguinte, ser preso arbitrariamente”, explica ele. “E ninguém quer isso.”
O programa Visão 2030 colaborou para mudar o panorama, da mesma forma que a sucessão de grandes eventos esportivos e de entretenimento que começaram a chegar à Arábia Saudita desde 2016, transformando imensamente sua realidade interna e sua imagem externa.
Nem tudo foi superficial. Medidas de impacto, como outorgar finalmente às mulheres o direito de dirigir, realmente transformaram a sociedade saudita.
Tanto é verdade que uma destacada influenciadora de moda saudita, radicada nos Estados Unidos, chegou a comentar comigo que seus amigos da Arábia Saudita a criticavam pela sua postura antiquada, sempre que a visitavam.
Mas as questões relativas aos direitos humanos continuam ofuscando estas mudanças.
Enquanto MBS e o fundo soberano saudita ingressavam sucessivamente em novos campos, as acusações de limpeza de imagem por meio do esporte, da arte, greenwashing etc. se multiplicavam.
Muitas figuras proeminentes do mundo do esporte e do entretenimento se mostraram encantadas ao visitar a Arábia Saudita. Mas outras se negaram a fazê-lo, citando seu histórico de direitos humanos.
Milhares de fãs se reuniram em Riad para eventos como as corridas automobilísticas e as lutas de boxe. Mas outros possíveis turistas se desanimaram, devido à visão negativa do reino.
Tudo isso, no entanto, não desmente que, para muitos jovens sauditas, as ambições de MBS foram populares e inspiradoras.
Salvando o projeto Visão 2030
A drástica redução dos gastos de alguns dos projetos mais suntuosos (o que, visto do exterior, parece ser, ao menos em parte, uma admissão de fracasso) está sendo apresentada da forma mais positiva possível pelas autoridades sauditas.
“A ideia, agora, é conseguir pequenas vitórias, pequenos sucessos aqui e ali, em vez desses megaprojetos”, segundo Abdullah.
“O complexo turístico da ilha de Sindalah, no mar Vermelho, por exemplo, poderá ser um pequeno triunfo que eles podem promover.”
“Trata-se, basicamente, de um estilo de resort muito tradicional, que ainda pode ser apresentado como parte da visão, no lugar de projetos como The Line e The Cube.”
“Assim, eles podem dizer: ‘Isto representa a base de Neom e não precisávamos ter aquilo tudo'”, explica ele.
Esta visão coincide com o que começaram a dizer as autoridades.
O controlador do PIF, Yasir al-Rumayyan, declarou recentemente que, como parte de um novo plano quinquenal, o fundo “se concentraria, com sua estratégia, em aumentar a eficiência dos seus gastos e desembolsos, ao lado de uma avaliação sustentável do desempenho dos seus negócios, para atingir o equilíbrio e garantir a sustentabilidade dos seus recursos financeiros”.
Para alguns analistas, este novo enfoque é essencialmente a melhor opção para as autoridades sauditas e uma forma de salvar o próprio projeto Visão 2030.
O destacado empresário e consultor de gestão saudita Thamer Shaker apresenta esta mesma questão de outra forma.
Para ele, “o que estamos observando é a evolução natural de uma fase impulsionada pela ambição para uma fase impulsionada pela execução”.
“Toda grande transformação nacional atinge um ponto em que a priorização, o sequenciamento e a alocação de recursos passam a ser mais importantes que a magnitude dos anúncios em si”, prossegue Shaker.
Alguns dos projetos de maior destaque, com enfoque menos futurista, continuarão sendo desenvolvidos. Eles incluem o remodelamento e revitalização da antiga capital, Diriyah, em Riad, e o enorme parque temático de última geração Six Flags Qiddiya City, também próximo à capital.
O projeto do antigo local de AlUla, no norte do país, foi bem sucedido e serve de modelo para a realização de projetos similares. Ele é famoso pelos seus monumentos nabateus, que rivalizam com os de Petra, na vizinha Jordânia.

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O projeto para transformar um local até então esquecido no principal projeto da renovada identidade nacional e cultural da Arábia Saudita já custou bilhões de dólares. E outros bilhões foram destinados a tentar transformá-lo em um centro turístico mundial.
Mas este é um objetivo mais viável, por exemplo, que o projeto The Line.
Sem dúvida, MBS tentará garantir que os projetos tenham um componente visionário, embora alguns dos conceitos mais ambiciosos aparentemente tenham sido reduzidos para tentar manter os custos sob controle.

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As autoridades sauditas tentam claramente apresentar relativa transparência na mudança de rumos do projeto Visão 2030, rompendo com seu passado de ocultamento e ambiguidade.
A impressão transmitida é que eles teriam reconhecido seus erros e mudado de direção.
O especialista em dinâmica política e econômica do Golfo, Mate Szalai, afirma que isso é útil, até certo ponto, para os políticos e diplomatas estrangeiros.
“Para eles, o fato de que os sauditas admitam seus erros, ao menos em parte, e falem deles, sem dúvida, é um sinal positivo”, explica Szalai. “Mas não acredito que isso atinja o nível desejado pela maioria dos investidores e das partes interessadas.”
O empresário saudita Thamer Shaker se mostra mais otimista.
“Em muitos casos, uma priorização disciplinada pode realmente aumentar a confiança dos investidores… O debate internacional está se afastando cada vez mais de ‘qual a importância dos anúncios?’ para ‘até que ponto o modelo de execução é confiável?'”
Fechar a torneira
A reavaliação do projeto Visão 2030 já estava em andamento antes da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã.
O conflito alterou o status quo em toda a região do Golfo, gerando dúvidas sobre a estratégia impulsionada pelos Emirados Árabes Unidos para se transformar em um centro comercial e turístico mundial. É uma estratégia que a Arábia Saudita claramente pretendia reproduzir e até mesmo superar.
Szalai afirma que, após poucos meses da recalibragem, a guerra gerou ainda mais confusão sobre os rumos futuros do projeto Visão 2030.
“Antes da guerra, as principais áreas em que os sauditas buscavam maior investimento eram a IA e outros projetos substanciais: turismo, produção, mineração e certas indústrias locais”, explica ele. “Mas todas elas se viram gravemente prejudicadas pela guerra, exceto pela mineração.”
“Antes da guerra, a mensagem principal era que Neom seria redefinida como centro para indústrias dedicadas à IA. É claro que isso faz sentido no contexto da guerra, mas demonstra que a mensagem principal se altera a cada mês.”
“Isso indica uma certa confusão estratégica”, prossegue Szalai. “Mas também é um sinal positivo, pois as autoridades sauditas sabem que devem elaborar um novo plano.”

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O projeto Visão 2030 contribuiu para o surgimento de uma Arábia Saudita diferente, para comemoração de alguns e condenação de outros.
A transformação se baseou em três pilares, mas ainda resta um longo caminho pela frente.
Socialmente, foram produzidas grandes mudanças que transformaram a própria experiência de morar em uma cidade como Riad. Isso aumentou os gastos dos próprios sauditas em uma ampla variedade de ofertas de entretenimento que simplesmente não existiam 20 anos atrás.
E, economicamente, o objetivo dos megaprojetos da Visão 2030 era impulsionar o país finalmente rumo a um futuro em que os investimentos privados e estrangeiros estivessem à altura da imensa riqueza petrolífera do Estado.
Mas este objetivo só se concretizou parcialmente.
Para os líderes sauditas, é claro, tudo foi apresentado como uma história de sucesso, embora não na escala inicialmente prevista.
Por mais que MBS queira ser considerado visionário, parece claro que tanto ele quanto os que o rodeiam também querem se mostrar práticos e pragmáticos quando necessário.
Eles não prestam contas ao povo saudita pelos bilhões de dólares gastos em projetos que, agora, podem vir a existir apenas na internet.
Até onde se sabe, a popularidade do príncipe herdeiro continua alta entre os jovens sauditas. Isso permite descartar seus megaprojetos como se fossem papel rasgado — o que, no caso de The Cube, pode não estar longe da realidade.
Os grandes personagens do mundo do esporte, do entretenimento, das artes e de outros setores, que chegaram a depender do dinheiro saudita, enfrentam agora uma nova realidade. A torneira permanece apenas gotejando, ou foi fechada por completo.
Para Ellen R. Wald, alguns destes projetos, como o LIV Golf Tour, nunca pareceram fazer sentido, desde o princípio.
“A pergunta é: qual era sua estratégia original?… Suponho que eles não tenham gasto todo aquele dinheiro apenas para fazer relações públicas. Seria uma loucura.”
Fonte.:BBC NEWS BRASIL


