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17 de maio de 2026

Ypê, Orelha e o jornalismo de rede social – 16/05/2026 – Alexandra Moraes – Ombudsman

Ypê, Orelha e o jornalismo de rede social – 16/05/2026 – Alexandra Moraes – Ombudsman

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Antes da revelação, pelo The Intercept Brasil, da aliança Vorcaro-Bolsonaro para viabilizar a cinebiografia “Dark Horse”, a grande história da semana era a Ypê, e volto a ela porque havia ali mais problemas do que meros mamadores de detergente.

No dia 7, a Anvisa determinou o recolhimento de lotes de produtos da Ypê por risco de contaminação. Seguiu-se uma violenta campanha nas redes sociais a favor da marca, com políticos, empresários e gente identificada com a direita. Alguns dias depois, com a polêmica a milhão, a Folha publicou que a “Campanha pró-Ypê revela elemento mobilizador das teorias conspiratórias da direita bolsonarista”.

O jornal fez bem em buscar as fagulhas que animaram a campanha (política) dos radicais, mas havia mais confusão em torno dos produtos de limpeza. Afinal de contas, ao menos em parte a ação se alimentava de um problema real de comunicação, no qual estavam incluídos os jornais.

Falta de clareza, explicações insuficientes e vaivém nas decisões da empresa e dos órgãos oficiais abriam espaço para dúvidas e desorientação independentemente da campanha de desinformação.

Ao jornalismo caberia checar e esclarecer as movimentações que afetavam a vida dos consumidores, tanto pelo exercício saudável do ceticismo quanto pela obrigação de levar a informação mais precisa e confiável ao leitor.

Não pareciam totalmente sem propósito questões sobre a gravidade do caso, em especial depois do anúncio de uma “suspensão da suspensão”, a partir de um recurso da empresa. As dúvidas se amontoavam e se renovavam conforme a informação se movia.

A manipulação midiática do caso Ypê passou a ocupar quase tanto espaço quanto a questão sanitária em si. Um jeito de baixar a temperatura da especulação e favorecer a informação teria sido deixar mais claro que a empresa, com seus anúncios de mudanças e “medidas de correção”, parecia admitir à sua maneira a existência de problemas ou ao menos a possibilidade de eles existirem. Mas essa admissão custou a vir da forma como deveria.

Títulos relatavam ações da empresa que não pareciam desafiar a Anvisa, mas tampouco eram enfáticos nesse sentido. “Ypê diz que mudou tratamento da água após primeira fiscalização”, “Ypê propõe à Anvisa investir R$ 130 milhões em plano”, “Ypê apresenta 239 medidas de correção”.

Demorou até o final da tarde da sexta (15) para que surgisse um título com um claro “Ypê admite”, e ele apareceu no jornal O Globo: “Ypê admite presença de bactéria em sabão, mas diz que produtos ficaram retidos na fábrica”. Na entrevista, o diretor Sergio Pompilio afirmava ser “importante deixar claro” que a empresa não tinha “nenhuma divergência com a Anvisa”.

Não dá para saber se uma afirmação como essa, caso tivesse sido enunciada antes e de maneira mais clara e visível, teria poupado uns goles de detergente a consumidores já radicalizados. Mas poderia ter ajudado a informar gente bem-intencionada que acabou confusa.

Voltando ao texto sobre teorias conspiratórias, ele citava a influência de Olavo de Carvalho sobre o bolsonarismo. Mas o ruído nesse caso se assemelhava mais a lições conhecidas de Steve Bannon, como seu “flood the zone” —nos termos do ideólogo do trumpismo e da direita radicalizada, a tática é “inundar a zona” com besteiras para distrair, manipular e desorientar a mídia.

Parece ter dado certo, ao menos até a reportagem sobre “Dark Horse”, para a qual não houve detergente que bastasse.

Ao mesmo tempo, o arquivamento do caso do cão Orelha trouxe de volta questionamentos sobre a interação pouco saudável entre jornalismo e redes sociais e sobre a tentação persistente do sensacionalismo.

Na terça (12), o Ministério Público descartou a agressão e pediu arquivamento do caso, o que foi feito pela Justiça. Um leitor que preferiu não se identificar propôs uma reflexão. “O pedido de arquivamento após o laudo apontar que não houve espancamento deveria servir de alerta para a imprensa, que produz novas escolas Base com uma rapidez desesperadora. Uma incursão rápida apenas no histórico da Folha sobre o caso Orelha mostra títulos condenatórios, partindo do pressuposto de que houve agressão.”

“É possível que eles sejam culpados ou que tenha havido algum tipo de pressão política? Claro que sim. Mas o ‘talvez não’ deveria guiar uma atividade mais responsável, não? Não é uma crítica à Folha, claro, mas à mídia de forma geral, arrisco dizer que impulsionada pela ânsia do clique”, diz o leitor.

O jornal chegou a mostrar, em fevereiro, que havia problemas na investigação e nas provas. Mas o que se criou em torno da história também deveria ter sido objeto de uma análise mais detida.

Nunca é demais lembra que as revoltas virtuais, mesmo as que parecem ou de fato são justas, também servem como instrumentos de manipulação.


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Fonte.:Folha de S.Paulo

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