Domingo passado me aventurei pelas longínquas terras do Tatuapé, lá na direção do Sol nascente. Fui almoçar num boteco de que há muito ouvia falar: o bar do Berinjela, que acumula prêmios por seus petiscos. Ali desde 1964, tem esse nome porque seu fundador vendia berinjela na feira.
Pensei que fosse apenas um apelido. Mas o povo leva a sério a temática berinjelística. Para começar, a fachada do imóvel é toda roxa, gritando aos olhos numa paisagem de casas antigas, de pinturas discretas.
E aí metade do cardápio é dedicada a pratos e petiscos de berinjela. Achei ousado.
Não me levem a mal: sou um fã absoluto do vegetal. Do ponto de vista do negócio, porém, é como se o lugar se chamasse Cantinho do Brócolis ou Rei da Couve-de-Bruxelas.
Botecos, biroscas e assemelhados são essenciais para a sobrevivência de tesouros gastronômicos com alto índice de rejeição: entranhas, hortaliças amargas e aquela fauna miúda que causa repulsa em estômagos delicados.
Exemplo máximo desse prodígio botequeiro é o fígado com jiló, atração turística do Mercado Central de Belo Horizonte.
Em São Paulo, dois de meus bares favoritos —o Luiz Nozoie, na Saúde, e A Juriti, no Cambuci— são ninjas em fritar rã à doré. A carne é suave, finíssima. Mas a aparência do anfíbio, servido inteiro, remete a uma bailarina fazendo plié. Há quem se incomode.
Moela, codorna, pescoço de peru —e não nos esqueçamos dos roll mops, sardinhas avinagradas com cebola— subsistem entre batidas de amendoim, garrafas de jurubeba e mesas de plástico.
Duvido que alguém tenha estudado o fenômeno, mas eu tenho um palpite: boteco real é orgânico, não tem business plan. O dono serve o que lhe apetece, e quem não gosta que procure outro lugar.
O bar sempre foi refúgio dos enjeitados. Vale para pessoas, não haveria de ser diferente com alimentos.
Fiquemos agora com uma receita de berinjela.
Fiz um baba ghanoush, pasta árabe de berinjela e tahine, um pouco diferente. Processei o vegetal enquanto despejava o azeite: isso criou uma emulsão semelhante à maionese, lisa, de textura bem bacana.
Baba ghanoush diferentão
Rendimento
2 porções
Dificuldade: fácil
Tempo de preparo
Cerca de 30 minutos
Ingredientes
- 1 berinjela grande
- 1 dente de alho
- Suco de meio limão
- 2 colheres (sopa) de tahine
- 50 ml de azeite extravirgem
- Sal, salsinha e sumac a gosto
Modo de fazer
- Queime todos os lados da berinjela na chama do fogão: isso vai criar o aroma defumado essencial para o baba ghanoush. Deixe esfriar abafada num saco fechado
- Descasque a berinjela, descartando o talo. Misture com o alho, o tahine e o suco de limão. Bata no processador enquanto despeja aos poucos o azeite, até obter um creme consistente
- Tempere com sal, salsinha e sumac. Sirva com pita ou pão sírio
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Fonte.:Folha de S.Paulo


