Estradas sinuosas, névoa baixa, muitas araucárias e taças de vinho recebem o turista que chega à Serra Catarinense —ou, pelo menos, foi como esta turista foi recebida na última semana. Na região de Bom Retiro, a mais ou menos 900 metros de altitude, fica a vinícola Thera, cujos vinhos eram admirados pelas minhas papilas já há algumas safras.
Antes que se falasse na revolução trazida pela técnica da dupla poda e dos vinhos de inverno, era a Serra Catarinense a chamada nova fronteira dos vinhos brasileiros. Surgida como região vitivinícola nos anos 1990, abrigava projetos familiares que nasceram de forma independente, cada um com suas próprias castas e visões. Entre os destaques dessa primeira geração, estão castas italianas, como a sangiovese e a montepulciano, e um pinot noir feito pela Quinta da Neve que impressionou quem o provou. Com eles, ficou claro o potencial para a acidez mais alta.
A história da Thera começa duas décadas depois. O projeto é o segundo da família da Villa Francioni, e chegou com o objetivo de fazer vinhos em menor escala, com mais elegância. Lembrando que, para atingi-la, a acidez é fundamental. Já para ter acidez, o clima frio é uma das receitas.
Como eu já conhecia os vinhos, sabia que eram agradáveis, finos, vivos (olha a acidez aí!), pouco alcoólicos (brancos com 12%, tintos com 13%). Mas na Serra Catarinense, vi de onde vem tudo isso. No verão, por ali, até faz calor, mas nada que ultrapasse os 30ºC. À noite, o termômetro pode baixar a 8ºC, conta o enólogo Átila Zavarize, que está no projeto desde o começo, nos anos 2000.
É Zavarize quem assina as três linhas do portfólio da vinícola: a de entrada, que inclui o Anima Thera Merlot 2025 (R$ 164 no site da vinícola), uma casta que nem está nas tendências, mas que entrega muito neste tinto macio e redondo; a intermediária, com o Thera Rosé 2025 (R$ 209), feito ao estilo da Provence, com merlot, cabernet franc e syrah, fresco e mineral; e a icônica, com alguns vinhos de apenas 300 garrafas. É o caso dos espumantes Vinícola Thera Extra Brut Blanc de Blanc, um 100% chardonnay, finíssimo e delicado, e Nature, feito com chardonnay (80%) e pinot noir (20%), ótimo para acompanhar comida. Ambos ficam 36 meses em autólise (sur lie, em contato com as leveduras).
Mas são os brancos o grande trunfo. Hoje, são o que o mundo quer beber e, desde o início, já eram prioridade ali. Destaco o Thera Chardonnay 2025 (R$ 209), com nota delicada de fruta branca e acidez cítrica; e o corte bordalês Thera Semillon Sauvignon Blanc 2024 (R$ 349), cremoso, persistente e chique.
Além dos vinhos, o que se destaca é a paisagem montanhosa. Não à toa, foi montada ali uma estrutura de enoturismo, que começou com um restaurante para os visitantes. Mas eles gostavam tanto que queriam passar a noite, e assim veio o hotel boutique, totalmente no estilo quiet luxury. Mas aí teve gente que gostava tanto de passar temporadas que sonhava em morar lá. E assim nasceu o projeto de um condomínio (aliás, tendência forte do mercado).
Se comprar uma casa numa vinícola parece um passo muito largo para as pernas, outro mais administrável é uma visita ao wine-bar (que faz a linha chique minimalista), onde se pode tomar uma taça geladinha de branco e comer uma tábua de queijos. Mas, cuidado, pode ser o bastante para ser picado pela mosquinha imobiliária.
A jornalista viajou a convite da vinícola Thera e do hotel LK Design
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Fonte.:Folha de São Paulo


