Em “As Cores do Tempo”, o diretor Cédric Klapisch promove uma viagem ao fim do século 19 por meio das cores dos quadros de Monet e de um velho casarão de família.
Trata-se da família Meunier, cujos sobreviventes se reúnem para avaliar a venda de um casarão para a construção de um complexo comercial. Na reunião, percebemos as reações negativas de muitos deles à ideia. Mesmo assim, quatro deles são nomeados para acompanhar os funcionários da prefeitura a uma visita às ruínas da casa.
E aí não se trata só de uma viagem no tempo, mas de um percurso que permite que familiares estranhos uns aos outros possam se conhecer melhor, mesmo que só um deles, o personagem de Vincent Macaigne, tenha real interesse num primeiro momento.
Este é Guy, e parte dele perguntar sobre os outros, na viagem de volta a bordo de um trem. Todos falam o que fazem, respondendo à sua pergunta, mas não querem nem saber o que ele faz. Mesmo assim, ele informa ser um apicultor.
Os outros três, por melhor que sejam, carregam o piano para Macaigne brilhar. É um ator sublime, como vimos nos últimos longas de Emmanuel Mouret.
Seb, interpretado por Abraham Wapler, é criador de conteúdo. Céline, personagem de Julia Piaton, é engenheira. Abdelkrim, o quarto passageiro, vivido por Zinedine Soualem, é professor de francês.
Com formações e interesses tão diferentes, tudo leva a crer que o encontro não será muito frutífero, a menos que Guy force as coisas e promova uma aproximação real entre esses familiares. De todo modo, os quatro formam uma comissão para inventariar os objetos de arte encontrados no casarão antigo e comunicar aos outros familiares.
Quem promove o encontro dos tempos, na verdade, é Seb, cujos sonhos nos levam à juventude de Adèle Meunier no final do século 19, momento em que ela chega a Paris para procurar a mãe e, futuramente, dará início à família Meunier.
A moça é interpretada por Suzanne Lindon, filha de Vincent Lindon e Sandrine Kiberlain, que estreou na direção com apenas 20 anos em “16 Primaveras”, também protagonizado por ela.
No começo, a mudança de 2025 para o passado é subordinada aos sonhos de Seb. Aos poucos, o diretor se encarrega de operar essa transição com interessantes estratégias de câmera e montagem, até que a transição comece a acontecer naturalmente, sem qualquer artifício.
Graças ao carisma de Macaigne, as voltas ao passado são menos interessantes que os encontros dos descendentes de Adèle hoje. Mas há uma operação interessante de curto-circuito temporal: como estamos, supostamente, na mente de Seb, os personagens do século 19 têm o modo de falar do século 21. E é ele que se projeta no papel de Claude Monet.
Com um primeiro longa em 1992, depois de um par de curtas no final da década anterior, pode-se dizer que Cédric Klapisch é um cineasta dos anos 1990. Foi naquela década que conseguiu seus filmes mais bem-sucedidos, sobretudo “O Gato Sumiu“, de 1996, e “Odeio te Amar”, de 1997, talvez o mais celebrado de seus filmes iniciais.
Infelizmente, foi no final dessa mesma década que o diretor começou a fazer longas que o levaram a ser um pouco esquecido. Nos anos 2000, alguns diretores franceses de filmes médios, capitaneados por Patrice Leconte, reclamavam que os críticos eram cruéis com as mediocridades que faziam. Deu buchicho.
“As Cores do Tempo” é saudado como um retorno à forma, um longa com boas ideias e agradável de se ver, auxiliado por um elenco impressionante de jovens e veteranos, o que tem tudo a ver com o tema.
Talvez seja mais do que isso. Por trás da ideia de comparar retratos antigos numa parede com pessoas em pequenos quadrados numa reunião virtual na tela de um computador, há um espelhamento entre dois tempos distantes. E, por trás do ato de admirar uma obra de arte num museu, há um clamor pela desaceleração.
Pode soar conservador, mas é o contrário: uma resistência à velocidade do mundo atual, em que até filmes são vistos em ritmo acelerado, e à banalização de coisas que realmente importam, como as relações humanas e o contato com a arte.
Fonte.:Folha de S.Paulo


